quinta-feira, 28 de julho de 2016

Venha a nós o Vosso Reino


34. — Como foi dito, o Espírito Santo nos faz amar, desejar e pedir retamente o que nos convém amar, desejar e pedir (no. 3). Este Espírito produz em nós, primeiro, o temor que nos leva a procurar a santificação do nome de Deus, para, em seguida, nos dar o dom da piedade. A piedade é, propriamente, uma afeição terna e devotada por um pai e também por um homem caído na miséria.

Como Deus é nosso Pai, devemos não somente venerá-lo e temê-lo, mas também alimentarmos uma terna e delicada afeição por Ele. É esta afeição que nos faz pedir a vinda do reino de Deus. São Paulo declara em Tito, 2, 11-13: A graça de Deus apareceu a todos os homens, ensinando-nos que vivamos neste mundo sóbria, justa e piamente, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda gloriosa de nosso grande Deus.

35. — Mas podemos perguntar: Se o reino de Deus sempre existiu, porque pedimos a sua vinda?

Devemos responder a esta pergunta de três maneiras:

a) Primeiro: o reino de Deus, em sua forma acabada, supõe a perfeita submissão de todas as coisas a Deus. Um rei não será rei, efetivamente, antes de que todos os seus súditos lhe obedeçam.

Sem dúvida, Deus pelo que é e por sua natureza, é o Senhor do universo; e o Cristo, sendo Deus e sendo homem, tem, como Deus, o senhorio sobre todas as coisas. Diz Daniel (7, 14): No mais antigo dos dias foi lhe dado o poder, a honra e a realeza. É preciso que tudo lhe seja submetido. Mas isto ainda não é assim e se realizará no fim do mundo. Está escrito (1 Cor 15, 25): É necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. Eis porque pedimos: venha a nós o vosso reino.

36. — Assim fazendo, pedimos três coisas, a saber:

— que os justos se convertam;

— que os pecadores sejam punidos;

— que a morte seja destruída.

Os homens são submetidos ao Cristo de duas maneiras: ou voluntariamente ou contra a vontade. A vontade de Deus, com efeito, possui tal eficácia, que não pode deixar de se realizar totalmente. E já que Deus quer que todas as coisas sejam submissas ao Cristo, é preciso necessariamente ou que o homem cumpra a vontade de Deus, submetendo-se a seus mandamentos — o que fazem os justos — ou que Deus realize sua vontade naqueles que lhe desobedecem, isto é, nos pecadores e nos seus inimigos, punindo-os. O que acontecerá, no fim do mundo, quando Ele colocará seus inimigos debaixo de seus pés (cf., Sl 109, 1). Por isso é dado aos santos pedirem a Deus a vinda de seu reino, com a total submissão de todos à sua realeza. Mas esse pedido faz tremer os pecadores, pois assim terão de se submeter aos suplícios requeridos pela vontade divina. Infelizes aqueles (pecadores) que desejam o dia do Senhor (Am 5, 18).

A vinda do reino de Deus, no fim dos tempos, será também a destruição da morte. O Cristo é a vida; ora, a morte — que é contrária à vida — não pode existir em seu reino, segundo a palavra (1 Cor 15,26): O último inimigo a ser destruído será a morte, o que quer dizer que na ressurreição, segundo São Paulo (Fp 3, 21), o Salvador transformará nosso corpo de miséria, e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso.

37. b) Segundo: o reino dos céus designa a glória do paraíso. Não há nisto nada de espantoso, pois o reino quer dizer, simplesmente, governo. Um governo atinge seu mais alto grau de excelência, quando nada se opõe à vontade de quem governa.

Ora, a vontade de Deus é a salvação dos homens, pois Deus quer que todos os homens se salvem (cf. 1 Tm 2, 4). Esta vontade divina se realizara principalmente no paraíso, onde nada é contrário à salvação dos homens, pois o Senhor diz (Mt 13, 14): Os anjos lançarão fora de seu reino todos os escândalos. Neste mundo, ao contrário, abundam os obstáculos, para a salvação dos homens.

Quando, pois, pedimos a Deus: «venha a nós o vosso reino», rezamos para que, triunfando sobre esses obstáculos, sejamos participantes de seu reino e da glória do paraíso.

38. — Três motivos tornam este reino extremamente desejável.

Primeiro, pela soberana justiça deste reino. Falando de seus habitantes, o Senhor diz a Isaías (60, 21) que todos são justos. Aqui, os maus estão misturados com os bons, mas lá não haverá nem maus nem pecadores.

39. — Segundo, pela perfeita liberdade dos eleitos.

Aqui na terra, todos desejam a liberdade, sem possuí-la plenamente. Mas no céu se goza de uma plena e inteira liberdade, sem a menor servidão. Diz-nos São Paulo (Rm 8, 21): A própria criação será libertada do cativeiro da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

E não somente todos os eleitos possuirão a liberdade, mas serão reis, segundo o Apocalipse: Fizeste-nos reis e sacerdotes e reinaremos sobre a terra.

Serão todos reis, porque terão, como Deus, uma só vontade. Deus quererá o que os santos querem e os santos quererão o que Deus quer. Assim todos reinarão, porque farão a vontade de todos e Deus será a coroa de todos, segundo Isaías (28, 5): Naquele dia, o Senhor dos exércitos será a coroa da glória e a grinalda de exultação para o resto de seu povo.

40. — Terceiro, pela maravilhosa abundância de seus bens. Diz Isaías ao Senhor (64, 4): O olho não viu, exceto tu, ó Deus, o que tens preparado para aquele que te esperam. E o Salmista (Sl 102, 5). Enches de bens, segundo o teu desejo.

E é preciso notar que «só em Deus» o homem achará a excelência e a perfeição daquilo que procura, «neste mundo». Se procurais o deleite, em Deus achareis o deleite supremo. Se procurais riquezas, em Deus achareis a superabundância de tudo de que tendes necessidade e tudo que é razão de ser das riquezas. O mesmo acontece com os outros bens. Santo Agostinho reconhecia em suas Confissões: «A alma que fornica, ao afastar-se de vós, procurando os bens fora de vós, só os encontrará límpidos e puros se voltar para vós».

41. — c) Terceiro: porque muitas vezes o pecado reina e triunfa neste mundo, pedimos a Deus a vinda de seu reino. São Paulo se levantava contra esta calamidade (Rm 6, 12): Que o pecado não reine em vossos corações.

Esta infelicidade se realiza quando o homem se deixa levar sem resistência, até o fim de sua inclinação para o pecado.

Deus deve reinar em nosso coração e o faz efetivamente quando estamos prontos a observar os seus mandamentos.

Quando pedimos a vinda do reino de Deus, rezamos para que não reine em nós o pecado, mas que só Deus ali reine e para sempre.

42. — Por este pedido da vinda do reino de Deus, chegaremos à bem-aventurança, proclamada pelo Senhor (Mt 5, 4): Bem-aventurados os mansos.

Com efeito, segundo a primeira explicação do pedido venha a nós o vosso reino (n° 35), o homem, pelo fato de desejar que Deus seja reconhecido mestre soberano de tudo, não se vinga da injustiça recebida, mas deixa esse cuidado a Deus. Pois se vingando ele está procurando seu triunfo pessoal e não a vinda do reino de Deus.

De acordo com a segunda explicação (n° 37) se esperais o reino de Deus, quer dizer, a glória do paraíso, não deveis ficar inquietos, quando perdeis os bens deste mundo.

Do mesmo modo, pela terceira explicação, (no 41) pedis que reine em vós Deus e seu Cristo. Assim como Jesus foi mansíssimo, pois ele mesmo o diz (Mt 11, 29), deveis também ser mansos e imitar os Hebreus dos quais diz São Paulo (Heb 10, 34): aceitaram com contentamento a espoliação de seus bens.

Os Efeitos da Eucaristia










01.

No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da instituição, as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue; seus acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração, sem violação das leis da natureza, o Cristo único e inteiro existe Ele próprio em diversos lugares, assim como uma voz é ouvida e existe em vários lugares, continuando inalterado e permanecendo inviolável quando dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo, de fato, está inteira e perfeitamente em cada e em todo fragmento de hóstia, assim como as aparências visíveis que se multiplicam em centenas de espelhos.
02.
O efeito deste Sacramento deve ser considerado, portanto, primeira e principalmente em função daquilo que nele está contido, que é o Cristo.
Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo a vida da graça, segundo nos diz o Evangelho de João:
"A graça e a verdade, porém,
vieram por meio de Jesus Cristo".
Assim, da mesma forma, vindo Cristo ao mundo em forma sacramental, opera a vida da graça, segundo ainda outra passagem do mesmo Evangelho:
"Quem me come,
viverá por mim",
03.
O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo. Por isto, o efeito que a Paixão de Cristo realizou no mundo, este Sacramento também realiza no homem.
04.
O efeito deste Sacramento também deve ser considerado pelo modo através do qual ele é trazido aos homens, que é por modo de comida e bebida. E por isto todo efeito que a bebida e a comida material realizam quanto à vida corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e deleitar, tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual. E é por isto que se diz:
"Este é o pão da vida eterna,
pelo qual se sustenta
a substância de nossa alma".
De onde que o próprio Senhor diz, no Evangelho de São João:
"Minha carne é verdadeiramente comida,
e meu sangue é verdadeiramente bebida".
05.
Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser considerado pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido. Foi por causa disto que escreveu Santo Agostinho:
"O Senhor confiou-nos
o Seu Corpo e o Seu Sangue
em coisas tais que são reduzidas à unidade
a partir de muitas outras,
porque o pão é um,
embora conste de muitos grãos,
e o vinho é feito
a partir de muitas uvas".
E por isso ele também escreveu em outro lugar:
"Ó Sacramento da piedade,
ó sinal da unidade,
ó vínculo da caridade!".
06.
E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça, e uma refeição espiritual e a caridade não podem existir sem a graça, por todas estas coisas é manifesto que este Sacramento confere a graça.
07.
Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes,
"o amor de Deus não é ocioso;
opera grandes coisas,
se de fato existe".
Por isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito próprio, não somente é conferido o hábito da graça e da virtude, mas também esta é conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda Epístola aos Coríntios:
"O amor de Cristo
nos impele".
Daqui é que provém que pela virtude do Sacramento da Eucaristia a alma faz uma refeição espiritual por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da bondade divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos:
"Comei, amigos, e bebei;
e inebriai-vos, caríssimos".
08.
Este Sacramento também tem virtude para a remissão dos pecados veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele é tomado sob a espécie de alimento nutritivo. A nutrição proveniente do alimento é necessária ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é desperdiçado pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós também é desperdiçado a cada dia algo pelo calor da concupiscência pelos pecados veniais que diminuem o fervor da caridade. E por isto compete a este Sacramento a remissão dos pecados veniais. De onde que Santo Ambrósio diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia é tomado
"como remédio
da enfermidade de cada dia".
09.
Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não somente quanto ao hábito, mas também quanto ao ato, ao qual é conduzida neste Sacramento, pelo qual os pecados veniais se dissolvem. De onde que é manifesto que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos mortais, não contrariam a caridade quanto ao hábito, mas contrariam a caridade quanto ao fervor do ato, ao qual é conduzida por este Sacramento. É por esta razão que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento da Eucaristia.
10.
O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a pena devida ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele ser sacrifício, como por ser sacramento. A Eucaristia possui razão de sacrifício na medida em que é oferecido; possui razão de sacramento na medida em que é tomado.
11.
Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito para o qual foi instituído. Não foi, porém, como Sacramento, instituído para satisfazer, mas para alimentar espiritualmente pela união a Cristo e aos seus membros, assim como o alimento se une ao alimentado. Mas porque esta união se realiza pela caridade, por cujo fervor alguém pode conseguir a remissão não apenas da culpa, mas também da pena, daqui ocorre que por conseqüência, por uma certa concomitância ao efeito principal, o homem alcança a remissão também para a pena. Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como o modo de sua devoção e fervor.
12.
Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia possui virtude satisfatória. Entretanto, também na satisfação mais deve se considerar o afeto do oferente do que a quantidade da oblação, de onde que o Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da viúva que ofereceu apenas duas moedas, que
"ofereceu mais do que todos".
Embora, portanto, a oblação eucarística pela sua própria quantidade seja suficiente para a satisfação de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles pelos quais é oferecida, ou também para os próprios oferentes, de acordo com a quantidade de sua devoção, e não por toda a pena.
13.
A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros, pelo mesmo modo em que o corpo é preservado da morte futura. O pecado é uma certa morte espiritual da alma. Ora, a natureza corporal do homem é preservada da morte pela comida e pelo remédio na medida em que a natureza humana é interiormente fortificada contra o que pode corrompê-la interiormente. É deste modo que este Sacramento preserva o homem do pecado, porque através dele, unindo-se a Cristo pela graça, é fortalecida a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida espiritual e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo 103:
"O pão confirma
o coração do homem".
14.
A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também defendendo-o contra as impugnações exteriores. Pois é sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios, de modo que este Sacramento repele toda a impugnação dos demônios.
15.
Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à diminuição do incitamento do pecado, diminui, porém, este incitamento por uma certa conseqüência, na medida em que aumenta a caridade, porque, segundo diz Agostinho no Livro das 83 Questões,
"O aumento da caridade
é a diminuição da cobiça".
Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o homem no bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.
16.
Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros além dos que o recebem porque, conforme foi dito, este Sacramento não é apenas sacramento, mas é também sacrifício. Na medida em que neste Sacramento é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão de sacrifício. Na medida, porém, em que neste Sacramento é trazida invisivelmente a graça sob uma espécie visível, possui razão de sacramento.
17.
Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem, de proveito não só por modo de sacramento, como também por modo de sacrifício, porque é oferecido por todos os que o recebem.
18.
Mas também é de proveito para os que não o recebem, embora apenas por modo de sacrifício, na medida em que é oferecido pela salvação deles. É por isso que no cânon da Missa se diz:
"Lembrai-vos, Senhor,
dos vossos servos e servas,
pelos quais nós Vos oferecemos,
e eles Vos oferecem também,
este Sacrifício de louvor,
por si e por todos os seus,
pela redenção de suas almas,
pela esperança de sua salvação
e sua segurança".
19.
O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia seria de proveito para outros além dos que a recebem, quando disse, na última Ceia:
"Este cálice é o meu sangue,
que por vós",
isto é, os que o recebem,
"e por muitos"
outros,
"será derramado
para o perdão dos pecados".
20.
Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento a obtenção da graça e da glória e a remissão da culpa, pelo menos da venial, se este Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse a glória, a graça e a remissão das culpas sem ação nem paixão própria, por algum outro ter oferecido ou recebido este Sacramento.
Responde-se a isto dizendo que assim como a Paixão de Cristo é de proveito para todos para a remissão da culpa, e a obtenção da graça e da glória, mas não produz efeito senão naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e pela caridade, assim também este sacrifício que é a Eucaristia, memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito senão naqueles que se unem a este Sacramento pela fé e pela caridade. De onde que no Cânon da Missa não se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que nela estão, porém, o Sacrifício Eucarístico é de proveito maior ou menor de acordo com o modo de sua devoção.
21.
Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia obtém a remissão dos pecados veniais, assim devemos também dizer que os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento. Pois diz São João Damasceno:
"O fogo do seu desejo que há em nós,
acendendo-se mediante
aquele fogo que há no carvão",
isto é, neste Sacramento,
"queimará nossos pecados
e iluminará nossos corações
para que ardamos e nos deifiquemos
pela participação do fogo divino".
Mas o fogo do nosso desejo ou do nosso amor é impedido pelos pecados veniais, que impedem o fervor da caridade. Portanto, os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento.
22.
Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De um primeiro modo, na medida em que são passados. De um segundo modo, na medida em que estão sendo exercidos em ato.
Segundo o primeiro modo, os pecados veniais de nenhum modo impedem o efeito deste Sacramento. De fato, pode acontecer que alguém, depois de ter cometido muitos pecados veniais, se aproxime devotamente a este Sacramento e alcance plenamente o seu efeito.
Porém, de acordo com o segundo modo, os pecados veniais não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento não é apenas a obtenção da graça habitual ou da caridade habitual, mas também uma certa refeição atual de espiritual doçura. A qual, na verdade, é impedida se alguém se aproximar a este Sacramento com a mente distraída pelos pecados veniais. O aumento da graça habitual ou da caridade habitual, porém, não é tirado.
23.
Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento come espiritualmente segundo o hábito, mas não segundo o ato. E por isto recebe o efeito deste Sacramento segundo o hábito, não segundo o ato.
24.
Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é, ao fervor da caridade, do modo como ocorre com o Sacramento da Eucaristia. O Batismo é uma regeneração espiritual, pelo qual se adquire uma primeira perfeição, que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é uma refeição espiritual que possui uma deleitação atual.
25.
Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao receber a Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais na Eucaristia. A primeira, significada e contida, é o próprio Cristo; a segunda, significada mas não contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é, a sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento, só por isto significa estar unido a Cristo e aos seus membros. Ora, isto se realiza pela fé formada pela caridade, que ninguém pode possuir juntamente com o pecado mortal. E por isto é manifesto que quem quer que receba este Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade. Incorre, por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento. Peca, por causa disto, mortalmente.
26.
Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não sob a espécie sacramental, mas em sua substância própria, não pecavam. Às vezes até alcançavam o perdão dos pecados, como se lê no Evangelho de São Lucas a respeito da mulher pecadora. Isto acontecia porque o Cristo, aparecendo sob a sua espécie própria, não se exibia para ser tocado pelos homens em sinal de união espiritual com Ele, como é o caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi por isso que os pecadores que o tocavam em sua própria espécie não incorriam no crime de falsidade contra a divindade, como o fazem os pecadores que recebem este Sacramento.
27.
O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo, porque ambos ofendem a Cristo sob um sinal de caridade.
Esta semelhança compete a todos os pecadores em geral, porque por todos os pecados mortais age-se contra a caridade de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais quanto os pecados são mais graves.
Mas sob um aspecto especial os pecados contra o sexto mandamento tornam o homem mais inepto para o recebimento deste Sacramento, na medida em que, a saber, por este pecado o espírito é maximamente submetido à carne, e desta maneira é impedido o fervor do amor que é requerido neste Sacramento.

S. Tomás de Aquino Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 -
- Sermão sobre o Corpo do Senhor -

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Tesouro Escondido


O Evangelho (Mt 13,44-52) continua a série de parábolas sobre o Reino dos Céus. O ensinamento de Jesus é particularmente vivo e apto para mover a mente e o coração e, por conseguinte, para levar à ação. Jesus compara o Reino dos Céus “a um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44). Ou ainda, “a um negociante que andava em busca de pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13, 45-46). Nos dois casos, por duas vezes se fala em vender: vender significa desfazer-se do que é seu. Para possuir o Reino dos Céus as pessoas deverão desfazer-se de si mesmas, dos valores falsos deste mundo, do apego aos bens materiais. Vale apena vender tudo para possuir o tesouro do Reino! O Reino dos Céus – o Evangelho, o cristianismo, a graça, a amizade com Deus – é o tesouro escondido, mas presente no mundo; muitos o têm próximo, mas não o descobrem, ou antes, mesmo descoberto, não sabem dar-lhe o respectivo valor e descuidam-no, preterindo-o ao reino material: aos prazeres, às riquezas e às satisfações de vida terrena. Somente quem dispõe de um coração compreensivo para “distinguir o bem do mal” (1Rs 3,9), o eterno do transitório, a aparência do que é essencial, saberá tomar a decisão de “vender tudo quanto possui” para o adquirir. Jesus não pede pouco a quem quer alcançar o Reino; pede-lhe tudo. Mas também é certo que não lhe promete pouco; promete-lhe tudo: a vida eterna e a eterna e beatificante comunhão com Deus. Se o homem, para conservar a vida terrena, está disposto a perder a todos os seus bens, porque não se dispõe a fazer outro tanto, ou mais ainda, para conseguir para si a vida eterna?

Nas duas parábolas, mesmo sendo parecidas entre si, apresentam diferenças dignas de nota: O tesouro significa a abundância de dons; a pérola, a beleza do Reino. O tesouro apresenta-se de repente, a pérola supõe, pelo contrário, uma busca esforçada; mas em ambos os casos o que encontra fica inundado de uma profunda alegria. Assim é a fé, a vocação, a verdadeira sabedoria, o desejo do céu: por vezes, apresenta-se de modo inesperado, outras segue-se a uma intensa busca. A atitude do homem, em ambas as parábolas, está descrita com os mesmos termos: “vai e vende tudo o quanto tem e compra-a: o desprendimento, a generosidade, é condição indispensável para o alcançar.

“O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar que apanha peixes de todo o tipo” (Mt13,47). Esta rede lançada ao mar é imagem da Igreja, em cujo seio há justos e pecadores: até o fim dos tempos, haverá nela santos, como haverá os que abandonaram a casa paterna, dilapidando a herança recebida no Batismo; e uns e outros pertencem a ela, ainda que de modo diverso.

Como recorda o São João Paulo II, a Igreja “é Mãe, na qual renascemos para uma vida nova em Deus; uma mãe deve ser amada. Ela é santa no seu Fundador, nos seus meios e na sua doutrina, mas formada por homens pecadores; temos que contribuir para melhorá-la e ajudá-la a uma fidelidade sempre renovada, que não se consegue com críticas corrosivas” (Homilia em Barcelona, 1982).

A Igreja é fonte de santidade e causa da existência de tantos santos ao longo dos séculos.

Todos os membros da Igreja são chamados à santidade, “quer pertençam à Hierarquia, quer sejam por ela apascentados” (LG, 39).

Peçamos ao Senhor que nós, membros do Povo de Deus, do seu Corpo Místico, cresçamos em santidade pessoal e sejamos assim bons filhos da Igreja. “São precisos – diz o São João Paulo II – arautos do Evangelho, peritos em humanidade que conheçam a fundo o coração do homem de hoje, participem das suas alegrias e esperanças, das suas angústias e tristezas e ao mesmo tempo, sejam contemplativos, enamorados de Deus. Para isto, são precisos novos santos. Os grandes evangelizadores da Europa foram os santos. Devemos suplicar ao Senhor que aumente o espírito de santidade na Igreja e nos envie novos santos para evangelizar o mundo de hoje” (Discurso ao Simpósio de Bispos Europeus, 1985).

Amemos, cada vez mais, a Igreja de Cristo! Se amamos a Igreja, nunca surgirá em nós esse interesse mórbido em ventilar, como culpa da Mãe, as misérias de alguns dos filhos.

Façamos nossa a oração de Salomão: “Senhor, dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9). Que na procura do Tesouro e da Pérola Preciosa, os obstáculos nunca nos desanimem, “pois, tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus…” (Rm 8, 28).


Missa de Abertura marca início oficial da JMJ


Da cerimónia presidida pelo Cardeal Stanisław Dziwisz vieram as palavras tão esperadas: “A Jornada Mundial da Juventude, Cracóvia 2016, está aberta!”

Apesar do céu carregado de chuva e os trovões que os cobriam, mais de 200.000 peregrinos encaminharam-se e estabeleceram-se determinados no campo santificado pelo Papa São João Paulo II e abençoada pelo Papa Bento XVI, o Parque Błonia. A alegria generalizada de ali estar naquele momento tornava-os imunes a tudo, a santidade do lugar protegia-os. Porque às 17:30 chegaria por fim a hora que haviam esperado desde 2013: a Cruz da JMJ, entregue por jovens brasileiros no Rio de Janeiro, levada por jovens polacos por toda a Polónia, e sempre seguida pela imagem da Virgem Maria, chegou por fim ao altar da Santa Missa de Abertura da Jornada Mundial da Juventude 2016.

A cerimónia de duas horas foi presidida pelo Cardeal Stanisław Dziwisz, Arcebispo de Cracóvia, que começou por saudar os seus queridos amigos, cari amici, dear friends, chers amis, liebe Freunde, mas que a partir de então se dirigiu a todos “no idioma do Evangelho. É uma língua de amor. É uma língua de fraternidade, solidariedade e paz”. Praticou-se este espírito de união quando, para surpresa dos fiéis, depois de se ler também se cantou o Evangelho, um dos vários ritos da Igreja Oriental integradas na cerimónia, e que se repetirá nas próximas duas grandes missas da Jornada. É um abraço da Polónia aos seus peregrinos vizinhos Ucranianos e Russos, vindos de onde se pratica o rito Bizantino e não o Romano; e é uma descoberta para os restantes sobre quão rica e diversificada é a igreja una de que são parte.


A todos, o Cardeal falou primeiro sobre o caminho que os juntou ali. “Viemos “de todas as nações que há debaixo do céu” ( Act 2,5), como os peregrinos reunidos em Jerusalém no dia de Pentecostes, mas nós somos mais numerosos do que aqueles de dois mil anos atrás. Porque nós trazemos a riqueza dos séculos de evangelização, que se espalhou pelo mundo inteiro”. Agora, em Cracóvia, Jesus vai “fazer perguntas sobre o nosso amor, como no passado Ele perguntou a Simão Pedro. Não evitem a resposta”, desafiou. Porque tal como o Apóstolo, também peregrinos das Jornadas devem fazer com que “o fogo do amor se possa espalhar pelo mundo inteiro e tire o egoísmo, a violência e a injustiça, que na nossa terra se possa espalhar a cultura do bem, do amor, e da paz”.

Para guiar os jovens na sua missão, foram inevitavelmente invocados São João Paulo II e Santa Faustina – “Apóstola da Misericórdia Divina”, cuja mensagem reforça o lema desta Jornada. Mas também foi recordado o italiano Pier Frassati, um jovem beatificado que encheu a curta vida de caridade corajosa e atividade social resoluta e consequente pelos mais pobres.

Os fiéis presentes assimilaram tudo o que lhes foi dado, uns compenetrados em oração profunda – de olhos virados para o céu, ou de olhos fechados, de mãos juntas ou sobre o peito – outros efusivamente expansivos no seu júbilo– rindo, gritando, erguendo bandeiras, e dizendo, pelas câmaras, a quem está longe, que eles estão aqui. Uns escutando, a maioria cantando, músicas célebres como “Jesus Christ you are my life”, após a comunhão, e no fim “Abba Ojcze”, tema da anterior JMJ na Polónia em 1991. Comum a cada jovem, uma só força incontrolável que o transborda mas de que é parte, tal como a multidão a que ele pertence disposta em redor do altar em Błonia É a vivência da fé de todos, que é uma só, que se ouviu em uníssono quando o Cardeal decretou “A Jornada Mundial da Juventude, Cracóvia 2016, está aberta!”. O grito ensurdecedor repetir-se-á até Domingo, e ecoará de então em diante.

André Patrão (krakow2016)

Que estais no céu

17. — Entre as disposições necessárias àquele que reza, a confiança tem uma importância considerável. Quem pede alguma coisa a Deus, diz São Tiago, (1,6) faça-o com confiança e sem hesitação.
O Senhor, no princípio da Oração que nos ensinou, expõe os motivos que fazem nascer a confiança.
Primeiro, a complacência do Pai: Pai Nosso. Depois, diz o Senhor (Lc 11, 13): Vós que sais maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos; quanto mais dará vosso Pai celeste, do alto dos céus, àqueles que lhe pedem, seu bom Espírito.
Um outro motivo de confiança é a grandeza e o poder do Pai, o que nos faz dizer ao Senhor não apenas Pai nosso, mas Pai nosso que estais no céu. O Salmista também diz: (Sl 122, 1)Elevei meus olhos para vós que habitais nos céus.
18. — O Senhor usou a expressão que estais no céu por três razões diferentes.
Em primeiro lugar, esta expressão tem por objeto preparar a oração, como nos recomenda o Eclesiástico (18, 23): Antes da oração, preparai vossas almas. Seguramente, o pensamento de que nosso Pai está nos céus, isto é, na glória celeste, nos prepara para lhe dirigirmos nossas súplicas.
Na promessa do Senhor a seus Apóstolos (Mt 5, 12): vossa recompensa será grande nos céus, a expressão «nos céus» tem igualmente o sentido de «na glória celeste».
A preparação da oração se realiza pela imitação das realidades celestes, pois o filho deve imitar seu pai. Assim, São Paulo escreve aos Coríntios (I, 15,49): Como revestimos a imagem do homem terrestre, é preciso também revestirmos a imagem do homem celeste.
A preparação para a oração requer também a contemplação das coisas celestes. Os homens têm por hábito dirigir freqüentemente o pensamento para o lugar onde está seu pai e onde se acham os outros seres, objetos de seu amor, segundo a palavra do Senhor (Mt 6, 21): Lá onde está o teu tesouro, também está teu coração. Foi por isso que o Apóstolo escreveu aos Filipenses (3,20): Nos céus está a nossa morada.
A preparação da oração reclama, enfim, que aspiremos às coisas celestes. Àquele que está nos céus devemos pedir coisas celestes, como nos diz São Paulo (Cl 3, 1): Procurai as coisas do alto, lá onde está o Cristo.
19. — Em segundo lugar, as palavras «Pai nosso que estais no céu» podem significar a facilidade que tem Deus de ouvir as nossas preces, porque está próximo de nós. Aquelas palavras significam então: Pai nosso que estais nos santos. Com efeito, Deus habita nos santos.
Jeremias diz (14, 9): Senhor, Vós estais em nós. Os santos são realmente chamados «céus», segundo essas palavras do Salmo 18,12: «Os céus proclamam a glória de Deus».
Ora, Deus habita nos santos pela fé. São Paulo escreve aos Efésios (3, 17): Que Cristo habite em vossos corações pela fé.
Deus também mora nos santos pela caridade. Aquele que habita na caridade, diz São João (I, 4, 16), habita em Deus e Deus nele.
Deus mora ainda nos santos pela realização dos mandamentos. Se alguém me ama, declara o Senhor (Jo 14,23), guarda minha palavra e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.
20. — Em terceiro lugar, «que estais nos céus» se refere à eficácia do Pai ao nos ouvir. Neste caso a palavra «céus» designa céus materiais e visíveis; não que queiramos dizer, com isso, que Deus está encerrado no céu corpóreo, pois está escrito (2 Rs 18, 27): Eis que os céus e os céus dos céus não vos podem conter; mas estas palavras «que estais nos céus» mostram:
a) que Deus, por seu olhar, é clarividente e penetrante, porque vê do alto. Ele olhou de sua santa altura, diz o Salmo 101,20;
b) que Deus é sublime em seu poder, segundo a palavra do Salmista (102, 19): O Senhor dispôs seu trono, nos céus;
c) que Deus é estável em sua eternidade, segundo outras palavras (Sl 101, 13 e 28): Senhor, permaneceis eternamente e vossos anos, não têm fim. Por isto, diz-se de Cristo (Sl 88, 30): Seu trono é como o dia do céu, isto é, sem fim, como a duração do que é celeste. E o Filósofo confirma, com sua autoridade, a justeza desta comparação, quando faz notar em seu tratado «do céu»: «Por causa de sua incorruptibilidade, o céu é olhado por todos, como sendo a morada dos puros espíritos».
21. — Estas palavras «que estais nos céus» dirigidas ao Pai, no momento da oração, nos dão um triplo motivo de confiança, que repousa:
a) sobre o poder de Deus;
b) sobre a amizade de Deus, que nós invocamos;
c) sobre a conveniência de nosso pedido.
a) O poder do Pai que nós imploramos nos é sugerido pela expressão: «que estais nos céus», se por céus compreendermos os céus materiais e visíveis. Sem dúvida, Deus não está encerrado nos céus materiais, pois nos diz em Jeremias (23, 24): Encho o céu e a terra; diz-se, entretanto, «estais nos céus» para insinuar a virtude de sua natureza.
22. — Contra aqueles que afirmam que tudo vem necessariamente pela influência dos corpos celestes e negam a utilidade de se pedir qualquer coisa a Deus pela oração — como são tolos! — dizemos a Deus: «que estais nos céus» e ali está, por virtude de Seu poder, como Senhor dos céus e das estrelas, seguindo a palavra do Salmo (102, 19): O Senhor preparou seu trono nos céus.
23. — E também contra aqueles que em suas preces constroem e compõem imagens corpóreas de Deus, é na intenção deles que dizemos: «que estais nos céus». Desta sorte: pelo que há de mais elevado nas coisas sensíveis, nós lhes mostramos a sublimidade de Deus, que ultrapassa a tudo, incluindo o desejo e a inteligência dos homens, e assim tudo que se possa pensar e desejar é inferior a Deus. É por isto que está escrito no livro de Jó (32, 26): Deus é grande e ultrapassa nossa ciência, e no livro dos Salmos (Sl 112, 4): O Senhor se elevou acima de todas as nações. E Isaías declara (40, 18): A quem tendes vós assemelhado Deus?
24. — b) Muitos disseram que Deus, pelo fato de estar tão alto, não cuida das coisas humanas. É preciso, ao contrário, pensar que Ele está próximo de nós, e que está intimamente presente em nós. Esta familiaridade de Deus com o homem nos é apontada pelas palavras da Oração Dominical «que estais nos céus», se as entendemos assim: «vós que estais nos santos». Os santos são os céus, segundo a palavra do salmista (18,2): os céus mostram a glória de Deus e também Jeremias (14,9): Estais no Senhor.
25. — Esta intimidade de Deus com os homens nos inspira dois motivos de confiança quando rezamos ao Senhor.
O primeiro se apóia nesta proximidade divina que o Salmista mostra nas palavras (14, 4, 18): O Senhor está próximo dos que o invocam. Por isto o Senhor nos dá o aviso (Mt. 6, 6):Quando rezardes entrai em vosso quarto, quer dizer, no interior de vosso coração.
O segundo repousa no patrocínio dos santos. Por sua intercessão, podemos obter o que pedimos. (Jó 5, 1): Dirigi-vos a qualquer dos santos e São Tiago (5, 16): Rogai uns pelos outros, para que sejais salvos.
26. — c) Se, quando dizemos ao Pai celeste,: Vós que estais nos céus, pensamos que céus designam os bens espirituais e eternos, objeto de bem-aventurança, então nosso desejo das coisas celestes se inflama. Nosso desejo deve inclinar-se para onde está nosso Pai, pois lá também está nossa herança. São Paulo diz aos fiéis: Procurai os bens do alto (Cl 3, 1) e São Pedro (1, 1, 4) nos fala desta herança incorruptível, que nos está reservada nos céus.
O pensamento de que o Pai é nosso Bem espiritual eterno, objeto de nossa bem-aventurança, nos convida, com força, a levarmos uma vida celeste, a fim de nos tornarmos conforme o nosso Pai. Como é o celeste, assim também serão os celestiais, declara o Apóstolo (1 Cor 15, 18).
Estas duas coisas, o desejo da bem-aventurança do céu e o levar nesta terra uma vida celestial — nos predispõem incontestavelmente a rezar com devoção ao Senhor e dirigir-lhe uma oração digna de sua Majestade.
27. — Este é o primeiro pedido, no qual pedimos que o nome de Deus seja manifestado em nós e por nós proclamado.
Ora, o nome de Deus é antes de tudo, admirável, porque em todas as criaturas opera obras maravilhosas. O Senhor declara no Evangelho (Mc 16,17): Em meu nome, expulsarão os demônios, falarão novas línguas, e se beberem algum veneno mortal, este não lhes fará mal algum.
28. — Em segundo lugar, o nome de Deus é amável. «Não existe debaixo do céu, diz São Pedro (At 4, 12) nenhum outro nome, entre os que foram dados aos homens, que possa salvar-nos». E a salvação deve ser buscada por todos. Santo Inácio dá-nos o exemplo do quanto devemos amar o nome de Cristo. Quando o imperador Trajano exigiu que ele negasse o nome de Cristo, Santo Inácio respondeu: «Não podereis arrancá-lo de minha boca». O tirano ameaçou cortar-lhe a cabeça e assim tirar o nome de Cristo de seus lábios; replicou o bem-aventurado: «Não o arrancarás jamais de meu coração, pois é lá que está gravado, por isto não posso deixar de invocá-lo». Ouvindo estas palavras, Trajano, desejoso de verificar-lhes a exatidão, mandou cortar a cabeça do servidor de Deus e extrair-lhe o coração. E no coração encontrou gravado, com letras de ouro o nome de Cristo. O santo possuía este nome como um selo em seu coração.
29. — Em terceiro lugar, o nome de Deus é venerável. O Apóstolo afirma (Fp 2, 10): Que ao nome de Jesus se dobrem todo joelho no céu, na terra e nos infernos; no céu, no mundo dos anjos e bem-aventurados; na terra, tanto os homens, que querem a glória celeste, como os que, por temerem o castigo, buscam evitá-lo; nos infernos, no mundo dos danados, que estes se prostrem com temor diante de Jesus Cristo.
30. — Em quarto lugar, o nome de Deus é inexprimível, no sentido de que nenhuma língua é capaz de exprimir toda a sua riqueza.
Tenta-se, no entanto, explicá-la pelas criaturas. Assim, dá-se a Deus o nome de rochedo, por causa de sua firmeza. E notemos que se o Senhor deu a Simão, futuro fundamento da Igreja, o nome de Pedra (Mc 3, 16) foi precisamente porque sua fé, na divindade de Jesus, (cf. Mt 16, 18) devia fazê-lo participar de sua firmeza divina.
Designa-se Deus também pelo nome de fogo, em razão de sua virtude purificadora. Assim como o fogo purifica os metais, Deus purifica o coração dos pecadores. Assim está no Deuteronômio (4, 24): Vosso Deus é um fogo que consome.
Deus é também chamado luz, por causa de sua capacidade de iluminar. Como a luz ilumina as trevas, Deus ilumina as trevas do espírito. O Salmista, em sua oração, diz ao Senhor (17, 29): Meu Deus, iluminai as minhas trevas.
31. — Pedimos então que este nome seja manifestado, conhecido e tido por santo.
A palavra santo tem três significações:
Primeiramente, santo que dizer firme, sólido, inabalável. Assim, todos os Bem-aventurados que habitam os céus são chamados santos, porque se tornaram, pela felicidade eterna, inabaláveis. Neste sentido não há santos neste mundo, porque os homens estão, aqui, em constante movimento. «Senhor, dizia Santo Agostinho, afastei-me de vós e andei errante; afastei-me de vossa estabilidade
32. — Santo, em segundo lugar, significa: o que não é terrestre. Por isto, os santos que vivem no céu não têm afeição alguma pelas coisas terrestres. Tenho tudo em conta de imundices, para ganhar a Cristo, dizia São Paulo (Fp 3, 8). Pela palavra terra, designam-se os pecadores.
Primeiro porque, se não é cultivada, germinam nela espinhos e cardos, como está escrito no Gênesis (3, 8). Assim, também a alma do pecador, se não é cultivada pela graça, só produzirá os espinhos e os cardos do pecado.
Segundo, a terra é obscura e opaca, símbolo dos pecadores. Diz o Gênesis (1, 2): As trevas cobriram a face do abismo.
Terceiro, a terra, se não é aglutinada pela água, divide-se, desagrega-se, pulveriza-se, torna-se seca, pois o Senhor estabeleceu a terra sobre as águas, como diz o Salmista (Sl 135, 6):Deus firmou a terra sobre as águas. Assim a umidade da água remedeia a aridez da terra. A alma do pecador, privada da água, não passa de uma alma seca e árida, como constata o Salmo 142, 6: Minha alma é como a terra sem água.
33. - Enfim, santo, em terceiro lugar, significa «tinto de sangue». Também os santos que estão no céu são chamados santos, porque estão tintos de sangue, segundo o Apocalipse (7, 14): Estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes, no sangue do Cordeiro. Também diz o Apocalipse (1, 5): Jesus Cristo que nos amou e nos lavou dos nossos pecados, no seu sangue.

 SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO