sábado, 24 de setembro de 2016

Santo Padre Pio e Nossa Senhora


O amor e devoção do Padre Pio de Pietrelcina pela Bem-Aventurada Virgem Maria são lendários. De fato, passou grande parte do seu ministério exaltando as Suas virtudes e exortando todos os Católicos para que recorressem com confiança à Sua piedosa intercessão.
Desde muito pequeno Padre Pio experimentava um profundo amor pela Santíssima Virgem Maria, sua "mammusia" ("mamãezinha"), como carinhosamente a chamava.
Sua primeira peregrinação sendo um menino de 8 anos foi à virgem de Pompéia, a Virgem do Rosário, próximo a Nápoles. Em sua casa de Pietrelcina, como em todas as famílias italianas da época, o Santo Rosário era a oração familiar.
Quando Maria Santíssima apareceu em Fátima como a Virgem do Rosário e recomendou essa devoção como oração potente para obter todo bem e vencer todo mal, Padre Pio fez do Rosário sua oração incessante e incansável dia após dia.
Dizia o santo capuchinho: “Se a Virgem Santa tem sempre calorosamente recomendado onde quer que venha aparecido, não nos parece que deva ser por um motivo especial?”
Como verdadeiro filho de Nossa Senhora, o Padre Pio era dedicado ao Rosário, e diz-se que chegava a rezar o Rosário de 15 mistérios até 35 vezes por dia. Muitas fotografias mostram-no com a sua mão direita no bolso, onde guardava sempre o terço. Conhecido como "Santo do Rosário", o "Homem feito Rosário" praticou essa devoção durante toda sua vida. Na verdade, incitava todos os Católicos a "amar a Senhora e a rezar o Rosário, porque o Rosário é a arma contra os males do mundo."

Pe. Pellegrino, filho espiritual do Padre Pio, que viveu a seu lado muitos anos, revela que ele havia se consagrado a Nossa Senhora, segundo os ensinamentos de São Luís Maria Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, e foi escravo voluntário de Jesus e de Nossa Senhora “na vida e na morte”. E sugeria ao Pe. Pellegrino que fizesse o mesmo: "Eu te garanto que é infinitamente necessário e útil, para nós, colocarmo-nos nas mãos de Nossa Senhora como criancinhas", conforme o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, segundo S. Luís Maria
Um escritor bem conhecido sugeriu que "por detrás de todos os maravilhosos dons do Padre Pio, da sua extraordinária orientação das almas, do seu dom de bilocação e dos seus contatos com os anjos, estava Nossa Senhora, que o estimava como uma mãe estima a um filho, ao ponto de, numa altura em que ele, uma noite, foi agredido no seu quarto pelos demônios, Ela veio colocar uma almofada sob a sua cabeça para diminuir-lhe o sofrimento."

Padre Pio escreveu muitas vezes sobre o seu amor pela Mãe de Deus, lembrando-nos: "descansa o teu ouvido no Seu coração materno e escuta as Suas sugestões, e assim sentirás nascer em ti os melhores desejos de perfeição." Ele considerava Nossa Senhora como a grande força de harmonia e orientação implícita no Santo Sacramento da Penitência, e disse que "para compreender o Sacramento e fazê-lo dar mais frutos deves entregar-te às inspirações e à direção da Santíssima Virgem."

Quando lhe perguntavam qual era o papel de Nossa Senhora no plano divino da salvação, o Padre Pio respondia, dizendo que "todas as graças dadas por Deus passam pela sua Bem-Aventurada Mãe." Foi com este fundamento que celebrava a Missa da Imaculada Conceição quase todos os dias, na última década da sua vida terrena. Foi citado como tendo dito de Nossa Senhora que Ela "acompanha-me ao altar e fica ao meu lado enquanto celebro a Santa Missa."

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

São Pio de Pietrelcina, alívio para os sofrimentos de seus fiéis


Recebeu de Deus a inspiração de construir um grande hospital, conhecido como “Casa Alívio do Sofrimento”

Este digníssimo seguidor de S. Francisco de Assis nasceu no dia 25 de maio de 1887 em Pietrelcina (Itália). Seu nome verdadeiro era Francesco Forgione. Ainda criança era muito assíduo com as coisas de Deus, tendo uma inigualável admiração por Nossa Senhora e o seu Filho Jesus, os quais via constantemente devido à grande familiaridade. Ainda pequenino havia se tornado amigo do seu Anjo da Guarda, a quem recorria muitas vezes para auxiliá-lo no seu trajeto nos caminhos do Evangelho.

Conta a história que ele recomendava muitas vezes as pessoas a recorrerem ao seu Anjo da Guarda estreitando assim a intimidade dos fiéis para com aquele que viria a ser o primeiro sacerdote da história da Igreja a receber os estigmas do Cristo do Calvário. Com quinze anos de idade entrou no Noviciado da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em Morcone, adotando o nome de “Frei Pio” e foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910 na Arquidiocese de Benevento. Após a ordenação, Padre Pio precisou ficar com sua família até 1916, por motivos de saúde e, em setembro desse mesmo ano, foi enviado para o convento de São Giovanni Rotondo, onde permaneceu até o dia de sua morte.

Abrasado pelo amor de Deus, marcado pelo sofrimento e profundamente imerso nas realidades sobrenaturais, Padre Pio recebeu os estigmas, sinais da Paixão de Jesus Cristo, em seu próprio corpo. Entregando-se inteiramente ao Ministério da Confissão, buscava por meio desse sacramento aliviar os sofrimentos atrozes do coração de seus fiéis e libertá-los das garras do demônio, conhecido por ele como “barba azul”.

Torturado, tentado e testado muitas vezes pelo maligno, esse grande santo sabia muito da sua astúcia no afã de desviar os filhos de Deus do caminho da fé. Percebendo que não somente deveria aliviar o sofrimento espiritual, recebeu de Deus a inspiração de construir um grande hospital, conhecido como “Casa Alívio do Sofrimento”, que se tornou uma referência em toda a Europa. A fundação deste hospital se deu a 5 de maio de 1956.

Devido aos horrores provocados pela Segunda Guerra Mundial, Padre Pio cria os grupos de oração, verdadeiras células catalisadoras do amor e da paz de Deus, para serem instrumentos dessas virtudes no mundo que sofria e angustiava-se no vale tenebroso de lágrimas e sofrimentos. Na ocasião do aniversário de 50 anos dos grupos de oração, Padre Pio celebrou uma Missa nesta intenção. Essa Celebração Eucarística foi o caminho para o seu Calvário definitivo, na qual entregaria a alma e o corpo ao seu grande Amor: Nosso Senhor Jesus Cristo; e a última vez em que os seus filhos espirituais veriam a quem tanto amavam.

Era madrugada do dia 23 de setembro de 1968, no seu quarto conventual com o terço entre os dedos repetindo o nome de Jesus e Maria, descansa em paz aquele que tinha abraçado a Cruz de Cristo, fazendo desta a ponte de ligação entre a terra e o céu.

Foi beatificado no dia 2 de maio de 1999 pelo Papa João Paulo II e canonizado no dia 16 de junho de 2002 também pelo saudoso Pontífice. Padre Pio dizia: “Ficarei na porta do Paraíso até o último dos meus filhos entrar!”

São Pio de Pietrelcina, rogai por nós!
                                                                                                                                  Fonte: Canção Nova

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A vocação dos presbíteros à perfeição

Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são configurados com Cristo sacerdote, na qualidade de ministros da Cabeça, para construir e edificar todo o seu corpo que é a Igreja, como cooperadores da ordem episcopal. De fato, já pela consagração do batismo receberam, como todos os cristãos, o sinal e o dom de tão grande vocação e graça para que, apesar da fraqueza humana, possam e devam procurar a perfeição, segundo a palavra do Senhor: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). 

Os sacerdotes, porém, estão obrigados por especial motivo a atingir tal perfeição, uma vez que, consagrados a Deus de modo novo pela recepção do sacramento da Ordem, se transformaram em instrumentos vivos de Cristo, eterno Sacerdote, a fim de poderem continuar através dos tempos sua obra admirável que reuniu com suma eficiência toda a família humana. 

Como, pois, cada sacerdote, a seu modo, faz as vezes da própria pessoa de Cristo, é também enriquecido por uma graça especial, para que, no serviço dos homens a ele confiados e de todo o povo de Deus, possa alcançar melhor a perfeição daquele a quem representa, e para que veja a fraqueza do homem carnal curada pela santidade daquele que por nós se fez Pontífice santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores (Hb 7,26). 

Cristo, a quem o Pai santificou, ou melhor, consagrou e enviou ao mundo, se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem (Tt 2,1), e assim, pela Paixão, entrou na sua glória. De modo semelhante, os presbíteros, consagrados pela unção do Espírito Santo e enviados por Cristo, mortificam em si mesmos as obras da carne e dedicam-se totalmente ao serviço dos homens, e assim podem progredir na santidade pela qual foram enriquecidos em Cristo, até atingirem a estatura do homem perfeito. 

Deste modo, exercendo o ministério do Espírito e da justiça, se forem dóceis ao Espírito de Cristo que os vivifica e dirige, firmam-se na vida espiritual. Pelas próprias ações sagradas de cada dia, como também por todo o seu ministério, exercido em comunhão com o bispo e com os outros presbíteros, eles mesmos se orientam para a perfeição da vida. 

A santidade dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho frutuoso do próprio ministério; pois, embora a graça divina possa realizar a obra da salvação também por meio de ministros indignos, contudo Deus prefere, segundo a lei ordinária, manifestar as suas maravilhas através daqueles que, dóceis ao impulso e direção do Espírito Santo, pela sua íntima união com Cristo e santidade de vida, podem dizer com o Apóstolo: Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim(Gl 2,20).

Do Decreto Presbyterorum ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros, do Concílio Vaticano II
(N.12 ) (Séc.XX)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Alocução Livrai-nos do Mal

Atualmente, quais são as maiores necessidades da Igreja? 
Não deveis considerar a nossa resposta simplista, ou até supersticiosa e irreal: uma das maiores necessidades é a defesa daquele mal, a que chamamos Demônio.

Antes de esclarecermos o nosso pensamento, convidamos o vosso a abrir-se à luz da fé sobre a visão da vida humana, visão que, deste observatório, se alarga imensamente e penetra em singulares profundidades. E, para dizer a verdade, o quadro que somos convidados a contemplar com realismo global é muito lindo. É o quadro da criação, a obra de Deus, que o próprio Deus, como espelho exterior da sua sabedoria e do Seu poder, admirou na sua beleza substancial (cf. Gn 1,10 ss. ).

Além disso, é muito interessante o quadro da história dramática da humanidade, da qual emerge a da redenção, a de Cristo, da nossa salvação, com os seus magníficos tesouros de revelação, de profecia, de santidade, de vida elevada a nível sobrenatural, de promessas eternas (cf. Ef 1,10 ).

Se soubermos contemplar este quadro, não poderemos deixar de ficar encantados (Santo Agostinho, Solilóquios); tudo tem um sentido, tudo tem um fim, tudo tem uma ordem e tudo deixa entrever uma Presença-Transcendência, um Pensamento, uma Vida e, finalmente, umAmor, de tal modo que o universo, por aquilo que é e por aquilo que não é, se apresenta como uma preparação entusiasmante e inebriante para alguma coisa ainda mais bela e mais perfeita (cf. 1Cor 2,9 ; Rm 8,19 .23a title = "Rm 8,23: Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo."> ).

A visão cristã do cosmo e da vida é, portanto, triunfalmente otimista; e esta visão justifica a nossa alegria e o nosso reconhecimento pela vida, motivo por que, celebrando a glória de Deus, cantamos a nossa felicidade.

Ensinamento Bíblico

Esta visão, porém, é completa, é exata? Não nos importamos, porventura com as deficiências que se encontram no mundo, com o comportamento anormal das coisas em relação à nossa existência, com a dor, com a morte, com a maldade, com a crueldade, com o pecado, numa palavra, com o mal? E não vemos quanto mal existe no mundo especialmente quanto à moral, ou seja, contra o homem e, simultaneamente, embora de modo diverso, contra Deus? Não constitui isto um triste espetáculo, um mistério inexplicável?

E não somos nós, exatamente nós, cultores do Verbo, os cantores do Bem, nós crentes, os mais sensíveis, os mais perturbados, perante a observação e a prática do mal? Encontramo-lo no reino da natureza, onde muitas das suas manifestações, segundo nos parece, denunciam a desordem. Depois, encontramo-lo no âmbito humano, onde se manifestam a fraqueza, a fragilidade, a dor, a morte, e ainda coisas piores; observa-se uma dupla lei contrastante, que, por um lado, quereria o bem, e, por outro, se inclina para o mal, tormento este que São Paulo põe em humilde evidência para demonstrar a necessidade e a felicidade de uma graça salvadora, ou seja, da salvação trazida por Cristo (Rm 7); já o poeta pagão Ovidio tinha denunciado este conflito interior no próprio coração do homem: ´Video meliora proboque, deteriora sequor´(Ovídio Met.7, 19). Encontramos o pecado, perversão da liberdade humana e causa profunda da morte, porque é um afastamento de Deus, fonte da vida (cf. Rm 5,12 ) e, também, a ocasião e o efeito de uma intervenção, em nós e no nosso mundo, de um agente obscuro e inimigo, o Demônio.

O mal já não é apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Trata-se de uma realidade terrível, misteriosa e medonha. Sai do âmbito dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos quem se recusa a reconhecer a existência desta realidade; ou melhor, quem faz dela um princípio em si mesmo, como se não tivesse, como todas as criaturas, origem em Deus, ou a explica como uma pseudo-realidade, como uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças. O problema do mal, visto na sua complexidade em relação à nossa racionalidade, torna-se uma obsessão. Constituí a maior dificuldade para a nossa compreensão religiosa do cosmo.

Foi por isso que Santo Agostinho penou durante vários anos: ´Quaerebam unde malum, et non erat exitus´, procurava de onde vinha o mal e não encontrava a explicação. (Confissões, VII,5 ss) Vejamos, então, a importância que adquire a advertência do mal para a nossa justa concepção; é o próprio Cristo quem nos faz sentir esta importância. Primeiro, no desenvolvimento da história, haverá quem não recorde a página, tão densa de significado, da tríplice tentação? E ainda, em muitos episódios evangélicos, nos quais o Demônio se encontra com o Senhor e aparece nos seus ensinamentos (cf. Mt 1,43 )?

E como não haveríamos de recordar que Jesus Cristo, referindo-se três vezes ao Demônio como seu adversário, o qualifica como ´príncipe deste mundo´ (Jo 12,31; 14,30; 16,11)? E a ameaça desta nociva presença é indicada em muitas passagens do Novo Testamento. São Paulo chama-lhe ´deus deste mundo´ (2Cor 4,4) e previne-nos contra as lutas ocultas, que nós cristãos devemos travar não só com o Demônio, mas com a sua tremenda pluralidade: ´Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do Demônio. Porque nós não temos de lutar (só) contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares´ (Ef 6,11-12 ). Diversas passagens do Evangelho dizem-nos que não se trata de um só demônio, mas de muitos (cf. Lc 11,21; Mc 5,9), um dos quais é o principal: Satanás, que significa o adversário, o inimigo; e, ao lado dele, estão muitos outros, todos criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas; constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual conhecemos pouco (cf. DS 800).

O Inimigo Oculto

Conhecemos, todavia, muitas coisas deste mundo diabólico, que dizem respeito à nossa vida e a toda a história humana. O Demônio é a origem da primeira desgraça da humanidade; foi o tentador pérfido e fatal do primeiro pecado, o pecado original (cf. Gn 3; Sb 1,24).

Com aquela falta de Adão, o Demônio adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a redenção de Cristo nos pode libertar. Trata-se de uma história que ainda hoje existe: recordemos os exorcismo do batismo e as freqüentes referências da Sagrada Escritura e da Liturgia ao agressivo e opressivo ´domínio das trevas´ (Lc 22,53).

Ele é o inimigo número um, o tentador por excelência. Sabemos, portanto, que este ser mesquinho, perturbador, existe realmente e que ainda atua com astúcia traiçoeira; é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na história humana. Deve-se recordar a significativa parábola evangélica do trigo e da cizânia, síntese e explicação do ilogismo que parece presidir às nossas contrastantes vicissitudes: ´Inimicus homo hoc fecit´ (Mt 13,2). É o assassino desde o princípio... e ´pai da mentira´, como o define Cristo (cf. Jo 8,44-45); é o insidiador sofista do equilíbrio moral do homem. Ele é o pérfido e astuto encantador, que sabe insinuar-se em nós através dos sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica, ou de desordenados contatos sociais na realização de nossa obra, para introduzir neles desvios, tão nocivos quanto, na aparência, conformes às nossas estruturas físicas ou psíquicas, ou às nossas profundas aspirações instintivas.

Este capítulo, relativo ao Demônio e ao influxo que ele pode exercer sobre cada pessoa, assim como sobre comunidades, sobre inteiras sociedades, ou sobre acontecimentos, é um capitulo muito importante da doutrina católica, que deve ser estudado novamente, dado que hoje o é pouco.

Algumas pessoas julgam encontrar nos estudos da psicanálise ou da psiquiatria, ou em práticas evangélicas, no princípio da sua vida pública, de espiritismo, hoje tão difundidas em alguns países, uma compensação suficiente.

Receia-se cair em velhas teorias maniqueístas, ou em divagações fantásticas e supersticiosas. Hoje, algumas pessoas preferem mostrar-se fortes, livres de preconceitos, assumir ares de positivistas, mas depois dão crédito a muitas superstições de magia ou populares, ou pior, abrem a própria alma - a própria alma batizada, visitada tantas vezes pela presença eucarística e habitada pelo Espírito Santo - às experiências licenciosas dos sentidos, às experiências deletérias dos estupefacientes, assim como às seduções ideológicas dos erros na moda, fendas estas por onde o maligno pode facilmente penetrar e alterar a mentalidade humana. Não quer dizer que todo o pecado seja devido diretamente à ação diabólica; mas também é verdade que aquele que não vigia, com certo rigor moral, a si mesmo (cf. Mt 12,45; Ef 6,11), se expõe ao influxo do ´mysterium iniquitatis´, ao qual São Paulo se refere (2Ts 2,3-12) e que torna problemática a alternativa da nossa salvação. A nossa doutrina torna-se incerta, obscurecida como está pelas próprias trevas que circundam o Demônio. Mas a nossa curiosidade, excitada pela certeza da sua doutrina múltipla, torna-se legitima com duas perguntas: Há sinais da presença da ação diabólica e quais são eles? Quais são os meios de defesa contra um perigo tão traiçoeiro?

A Ação do Demônio

A resposta à primeira pergunta, requer muito cuidado embora os sinais do Maligno às vezes pareçam tornar-se evidentes (Tertuliano, Apologia, 23). Podemos admitir a sua atuação sinistra onde a negação de Deus se torna radical, sutil ou absurda; onde o engano se revela hipócrita, contra a evidência da verdade; onde o amor é anulado por um egoísmo frio e cruel; onde o nome de Cristo é empregado com ódio consciente e rebelde (cf. 1Cor 16,22; 12,3); onde o espírito do Evangelho é falsificado e desmentido; onde o desespero se manifesta como a última palavra, etc.

Mas é um diagnóstico demasiado amplo e difícil, que agora não ousamos aprofundar nem autenticar; que não é desprovido de dramático interesse para todos, e ao qual até a literatura moderna dedicou páginas famosas (*). O problema do mal continua a ser um dos maiores e permanentes problemas para o espírito humano, até depois da resposta vitoriosa que Jesus Cristo dá a respeito dele. ´Sabemos - escreve o evangelista São João - que todo aquele que foi gerado por Deus guarda-o, e o Maligno não o toca´ (1Jo 5,19).

A Defesa do Cristão

A outra pergunta, que defesa, que remédio, há para combater a ação do Demônio, a resposta é mais fácil de ser formulada, embora seja difícil pô-la em prática. Poderemos dizer que tudo aquilo que nos defende do pecado nos protege, por isso mesmo, contra o inimigo invisível. A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza. E, depois, todos devem recordar o que a pedagogia apostólica simbolizou na armadura de um soldado, ou seja, as virtudes que podem tornar o cristão invulnerável (cf. Rm 13,13; Ef 6,11 .14.17; lTs 5,8).

O cristão deve ser militante; deve ser vigilante e forte (lPd 5,8); e algumas vezes, deve recorrer a algum exército ascético especial, para afastar determinadas invasões diabólicas; Jesus ensina-o, indicando o remédio ´na oração e no jejum´ (Mc 9,29). E o apóstolo indica a linha mestra que se deve seguir: ´Não te deixes vencer pelo mal; vence o mal com o bem´ (Rm 12,21; Mt 13,29).

Conscientes, portanto, das presentes adversidades em que hoje se encontram as almas, a Igreja e o mundo, procuraremos dar sentido e eficácia à usual invocação da nossa oração principal: ´Pai nosso... livrai-nos do mal´.

Contribua para isso a nossa Bênção apostólica.

Audiência do Papa Paulo VI do dia 15 de novembro de 1972 
- Publicado no L’Osservatore Romano, ed. port. em 24/11/1972.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O impressionante crescimento da Igreja Católica no mundo

Céticos continuam anunciando o 'fim próximo da Igreja' – sem perceber que os números dobraram desde 1970... e continuam aumentando


EM MUITAS PARTES do mundo –, já não é de hoje –, parece cada vez mais difícil para o católico sentir-se otimista sobre o futuro da Igreja. Há alguns anos, a Sociedade Americana de Física ouviu uma notícia alarmante que previa quais populações do mundo se tornariam oficialmente sem religião até o ano 2100, e no topo da lista estavam antigos bastiões da fé católica, como a Áustria e a Irlanda. Sim, a Irlanda! 

Por décadas temos assistido, perplexos, a tantas histórias escabrosas e terríveis escândalos envolvendo os filhos da Igreja –, e por tanto tempo viemos sendo submetidos a tantos maus tratos por tantos dos nossos próprios pastores –, que podemos, sim, sofrer a tentação de duvidar do futuro. Por quanto tempo poderá a Barca de Pedro continuar navegando, incólume, em meio a tantas, tão grandes e tão traiçoeiras ondas? Poderemos realmente continuar sobrevivendo neste ritmo e neste cenário hostil?

Diante de tais circunstâncias é muito estranho perceber, logo em seguida, que esta mesma Igreja – que é, de longe, a maior instituição religiosa do nosso planeta, e a mais durável – na mais pura realidade dos fatos, desfruta de um enorme crescimento global; mais do que isso, cresce numa escala sem precedentes. Para que se tenha uma ideia, em 1950, a população católica do mundo era de 437 milhões, número que cresceu para 650 milhões em 1970 e avançou para cerca de 1,2 bilhões atuais[1]. Dito de outra forma, os números católicos duplicaram desde 1970, e a mudança ocorreu exatamente durante as grandes controvérsias e penosas crises recentes no seio da Igreja, após os debates seguintes ao Vaticano II e toda a ascensão do marxismo cultural e do secularismo no mundo.

Essa taxa de crescimento não mostra sinal de diminuir, pelo contrário. Para 2050, uma estimativa conservadora sugere que deverá haver um mínimo de 1,6 bilhão de católicos no mundo. Falamos sobre crescimento global, e este elemento "global" exige ênfase. A verdade é que a Igreja, em muitos sentidos, inventou a globalização, e isso ajuda muito a explicar o porquê de seus números estarem crescendo tanto. Ao longo da História houve muitas potências chamadas "impérios mundiais", mas que na realidade foram confinadas a regiões específicas, principalmente à Eurásia. Somente a partir do século 16 é que os impérios espanhol e português verdadeiramente passaram a se expandir a ponto de abranger grandes partes do globo terrestre. A verdadeira globalização, porém, começou em 1578, quando a Igreja Católica estabeleceu sua diocese em Manila, nas Filipinas – como sufragânea Sé da Cidade do México, do outro lado do imenso Oceano Pacífico.

Os referidos impérios, uma vez poderosos, há muito se extinguiram, e apenas a sua herança religiosa permanece nas populações católicas prósperas do Brasil, do México e das Filipinas, que hoje constituem os três maiores centros populacionais da Igreja. A população total do México cresceu de 50 milhões, em 1970, para 121 milhões atuais; logo, é claro que existem muitos mais católicos no país, hoje, do que eu qualquer outro momento. As Filipinas, por sua vez, hoje reivindicam 80 milhões de católicos, número que deverá aumentar para mais de 100 milhões em 2050. No ano passado, houve mais batismos católicos nesse país do que na França, Espanha, Itália e Polônia juntos.

Os céticos certamente argumentarão que o crescimento da Igreja é apenas reflexo e resultado secundário do crescimento das populações. Certamente a demografia desempenha o seu papel neste cenário; sozinha, porém, de maneira nenhuma explica o incrível avanço dos números. A prova mais clara disso é encontrada na África. Em 1900, a África tinha algo em torno de 10 milhões de cristãos de todas as denominações, o que constituía cerca de 10 por cento de sua população. Hoje, há meio bilhão de cristãos africanos, que representam metade da população continental, e esse número deve ser superior a um bilhão até a década de 2040(!). Este crescimento fenomenal – que é, aliás, de longe a maior mudança quantitativa que já ocorreu em qualquer religião, em qualquer lugar, na História do mundo – em parte se deve ao resultado do crescimento geral da população do continente (em 1900 havia três europeus para cada africano; em 2050 essa proporção deverá se inverter, e haverá três africanos para cada europeu), mas essa expansão é também, claramente, o resultado de conversões em massa. Durante o século 20, cerca de 40 por cento das pessoas da África mudou, da sua submissão assustada às velhas crenças primitivas, para o cristianismo.

Embora, no caso africano, estejamos falando do total das populações que confessam o Nome de Jesus Cristo, os católicos representam parte bastante significativa destes números impressionantes. Em 1900, toda a África tinha apenas 2 milhões de católicos, mas esse número cresceu para 130 milhões até o final do século, e hoje se aproxima dos 200 milhões(!). Se as tendências atuais continuarem, como mostram todos os sinais, para a década de 2040 haverá cerca de 460 milhões de católicos africanos. Incrivelmente, esse número seria maior do que a população total mundial de católicos em 1950.

Precisamos dizer, entretanto, que existem problemas com os números que estamos apresentando. Citamos números oficiais da Igreja, mas essas contagens são realmente falhas. Se olharmos para os dados do Survey Evidence of Religious Belief, encontraremos uma grande disparidade entre o número das estimativas mostradas e os totais relatados pelas autoridades da Igreja. Os sacerdotes locais, que andam muito ocupados batizando pessoas, mantém registros evidentemente confiáveis (com dados precisos como nomes, datas de nascimento e endereços) os quais apontam uma diferença de 20% para mais no já inacreditável número de católicos africanos(!).

A aparência dos nossos pastores vêm mudando nas últimas décadas

Essa realidade, que a primeira vista pode surpreender a muitos, não é exclusiva do continente africano. Desde 1980, o número total de católicos da Ásia cresceu 115%, e 56% nas Américas[3].


Além de tudo, nas últimas décadas, muitos milhões de migrantes do Sul do planeta têm viajado para o Norte, e uma parcela realmente grande desta população é formada por católicos. Vemos fortes evidências disso nas igrejas britânicas (saiba mais), especialmente em antigos locais de peregrinação, que vinham sendo esquecidos e estão agora sendo redescobertos naquele país, mas padrões similares podem ser encontrados em toda a Europa. As paróquias históricas – na Irlanda e França, por exemplo – agora vêm sendo agraciadas por padres da Nigéria ou do Vietnã(!). Globalização? Com todos os seus prós e contras, vem sendo positiva para a Igreja dos nossos tempos.

Quando consideramos as estatísticas apresentadas neste artigo, qualquer sugestão de que a Igreja Católica esteja "morrendo" –, ou mesmo estagnada –, torna-se tão completamente equivocada que chega a ser cômica. Estranhamente, porém, esta não é a primeira vez que observadores externos consideraram perspectivas sombrias para o futuro da Igreja. Já na década de 1890, Mark Twain sabiamente observou: "Neste mundo, temos visto o poder da Igreja 'morrendo'... há muitos séculos".
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Notas:
1. Dados do The Catholic Herald
2. Idem
3. Ibidem
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Fonte:
JENKINS, Philip. 'Catholicism’s incredible growth story', publicado em 8/9/016, disp. em:
catholicherald.co.uk/issues/september-9th-2016/catholicisms-incredible-growth-story
Acesso 15/9/016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A fé é coroada pelo amor e a perseverança

Meus caríssimos irmãos e amigos, considerai como Deus no princípio dos tempos dispôs os céus, a terra e todas as coisas; meditai também com que especial intenção criou o ser humano à sua imagem e semelhança. 

Se, pois, nesta vida de perigos e miséria, não reconhecermos o Criador, de nada nos servirá termos nascido e continuar vivendo. Já neste mundo pela graça divina, pela mesma graça recebemos o batismo, entrando no seio da Igreja e tornando-nos discípulos do Senhor. Mas, trazendo assim o precioso nome de cristãos, de que nos servirá tão grande nome, se na realidade não o formos? Seria inútil termos nascido e ingressado na Igreja se traíssemos o Senhor e a sua graça; melhor seria não termos nascido do que, recebendo a sua graça, pecarmos contra ele. 

Considerai o agricultor ao lançar a semente no campo: primeiro, prepara a terra com o suor do seu rosto e depois joga a preciosa semente; chegando o tempo da colheita, alegra-se de coração com as espigas cheias, esquecendo seu trabalho e suor, e dançando de alegria; se porém as espigas permanecem vazias não sendo mais que palha e casca, o agricultor deplora o duro labor com que suou, sentindo-se tanto mais desesperado quanto mais trabalhou. 

De modo semelhante, cultiva o Senhor a terra como seu campo, sendo nós os grãos de arroz; rega-nos com o seu sangue na sua Encarnação e Redenção para que possamos crescer e amadurecer; quando, no dia do juízo, vier o tempo da colheita, quem pela graça for achado maduro gozará o reino dos céus como filho adotivo de Deus. Quanto aos outros, que não amadureceram, tornar-se-ão inimigos, punidos para sempre, embora também tenham se tornado filhos adotivos de Deus pelo batismo. 

Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo, sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos não poderão prevalecer: da Ascensão de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações. 

Também nesta nossa terra da Coréia, durante os cinquenta ou sessenta anos em que a santa Igreja se estabeleceu aqui, os fiéis sempre sofreram perseguições. Hoje acendeu-se de novo a perseguição; muitos amigos são, como eu, lançados nos cárceres, enquanto também sofreis tribulações. Unidos num só corpo, como não ficarão tristes os nossos corações? Como, humanamente, não experimentarmos a dor da separação? 

Deus, porém, como diz a Escritura, cuida de cada cabelo de nossa cabeça, e o faz com toda a sabedoria; portanto, como não considerar esta perseguição senão como permitida pelo Senhor, ou mesmo, seu prêmio ou, até, sua pena? 

Abraçai, pois, a vontade de Deus, combatendo de todo o coração pelo vosso chefe Jesus e vencendo o demônio, já vencido por ele. 

Eu vos peço: não deixeis de lado o amor fraterno, mas ajudai-vos uns aos outros, perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação. 

Aqui somos vinte e, pela graça de Deus, todos ainda estão bem. Caso algum de nós venha a morrer, peço não negligenciardes a sua família. Muitas coisas teria ainda a dizer-vos, mas como posso exprimi-las em tinta e papel? Por isso vou terminar minha carta. Aproximando-se para nós a luta, peço-vos finalmente que caminheis com fidelidade, de modo que no céu nos possamos congratular. Deixo-vos aqui meu ósculo de amor.

Da última Exortação de Santo André Kim Taegón, presbítero e mártir
(Pro Corea. Documenta., ed. Mision Catholique Séoul, Séoul-Paris 1938, Vol. I,74-75) (Séc.XIX)

A história de uma alma



Santa Teresinha do Menino Jesus é um fenômeno espiritual extraordinário que abalou a França e a história da Igreja. Nascida em 2 de janeiro de 1873, em Alençon, ela experimentou o amor de Deus em sua vida desde muito pequena, por meio de seus pais, os bem-aventurados Luís Martin e Zélia Guérin. Desejosa de entregar-se totalmente a Deus, Teresa abraçou a vida religiosa e foi ali, no Carmelo de Lisieux, que ela escreveu a doutrina espiritual de sua "pequena via" e passou pela derradeira paixão de sua vida – uma tuberculose, que a levou muito cedo, em 30 de setembro de 1897.

Em um colóquio de despedida com Madre Inês de Jesus, em 17 de julho de 1897, Santa Teresinha confidenciava: "Passarei o meu Céu fazendo o bem sobre a Terra"01. Com efeito, tão logo ela morreu, começaram a aparecer milagres operados por sua intercessão. Teresinha foi vista em vários lugares do mundo, aparecendo inclusive para soldados nas trincheiras, durante a Primeira Guerra Mundial. Sua fama espalhou-se e começou a popularizar-se a famosa "novena das rosas", durante a qual as pessoas relatavam ter recebido rosas como sinal da proteção de Teresinha. O Carmelo de Lisieux não sabia mais o que fazer com tantas cartas: chegava-se a receber 500 por dia!

Enfim, no ano de 1925, o Papa Pio XI, reconhecendo a notável força de sua devoção02, canonizou Santa Teresinha do Menino Jesus, declarando-a, depois, padroeira das missões, ao lado de São Francisco Xavier, e padroeira da França, ao lado de Santa Joana d'Arc. Na homilia por ocasião de sua canonização, comentando o trecho do Evangelho que diz que "se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus"03, ele disse:

"Teresa, a nova Santa, tendo absorvido fortemente esta doutrina evangélica, traduziu-a na prática da vida cotidiana: de fato, com a palavra e com o exemplo, ensinou às noviças do seu mosteiro esta via da infância espiritual, e a todos os outros por meio dos seus escritos: escritos que, difundidos em todo o mundo, ninguém lê sem querer reler mais e mais vezes, com alegria máxima para a alma e com fruto. Na verdade, esta puríssima menina, que floresceu no horto recluso do Carmelo, tendo acrescentado ao próprio nome o do Menino Jesus, expressou em si mesma a sua imagem, de modo que se diga que quem venera Teresa, venera e louva o divino exemplo que ela copiou em si mesma.


"Hoje, portanto, esperamos que nas almas dos fiéis se estabeleça o firme propósito de pôr em prática esta infância espiritual, a qual consiste nisto: que tudo o que a criança pensa e faz por natureza, também nós o pensemos e façamos pelo exercício da virtude. De fato, como as crianças, não manchadas por nenhuma culpa e desimpedidas de qualquer esforço de paixão, repousando seguras na posse da própria inocência, e livres de todo engano e falsidade, exprimem sinceramente seus pensamentos e agem retamente de acordo com o que são de fato, Teresa mostrou-se mais angélica que humana e alcançou a simplicidade de uma criança, segundo a lei da verdade e da justiça." 

"Na memória da virgem de Lisieux estavam bem impressos o convite e as promessas do divino Esposo: 'Quem é pequeno venha a mim' (Pr 9, 4); 'Seus filhinhos serão carregados ao colo, e acariciados no regaço. Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados' (Is 66, 12-13). Assim, Teresa, consciente de sua própria fragilidade, entregou-se confiante à divina Providência, a fim de que, apoiando-se exclusivamente em Sua ajuda, pudesse alcançar a perfeita santidade de vida, mesmo através de grandes dificuldades, tendo decidido chegar a ela com a total e alegre abdicação da própria vontade." 

"Não surpreende, então, que nesta santa religiosa se tenha realizado o que disse Cristo: 'Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos céus' (Mt 18, 4). De fato, aprouve à benevolência divina enriquecê-la com o dom de uma sabedoria quase singular. Tendo atingido largamente a verdadeira doutrina da fé por meio da instrução do Catecismo, a ascética, do áureo livro da Imitação de Cristo e a mística, dos livros de São João da Cruz, alimentando também sua mente e seu coração com a assídua leitura das Sagradas Escrituras, o Espírito de verdade lhe comunicou e manifestou o que coube esconder 'aos sábios e entendidos' e revelar 'aos pequeninos'. De fato, ela – segundo o testemunho do nosso Predecessor – foi dotada de tal ciência das coisas celestes a ponto de indicar aos outros a via correta da salvação. E esta participação abundante na divina luz e na divina graça acendeu em Teresa um incêndio tão grande de caridade que, portando-a continuamente quase fora do corpo, por fim, a consumou, de modo que, pouco antes de deixar a vida, pôde candidamente declarar que 'não havia dado a Deus nada mais do que amor'. Segue-se também que, por essa força de ardente caridade, na jovem de Lisieux, existiram o propósito e o empenho 'de trabalhar por amor de Jesus, unicamente para agradar e consolar o seu Sacratíssimo Coração e para promover a salvação eterna das almas, para que pudessem amar a Cristo para sempre'. Que ela tenha começado a fazê-lo e obtê-lo tão logo chegou à Pátria Celeste se percebe facilmente vendo que essa mística chuva de rosas, que ela tinha ingenuamente prometido enquanto viva, tenha se propagado e continue a se propagar sobre a terra, por concessão divina."04 
O Brasil tem a honra de ser pioneiro na veneração da memória de Santa Teresinha. De fato, o português foi uma das primeiras línguas a que a obra "História de uma alma" foi traduzida. Muitos santuários, basílicas e igrejas foram dedicados a ela em solo brasileiro. A urna que serve de depósito para os seus restos mortais é mais uma expressão da generosidade de fiéis brasileiros, que a doaram para a França. Não sem motivo esta urna é chamada pelos franceses la châsse du Brésil ("a caixa do Brasil").

Em 1997, no centenário do nascimento de Teresa para o Céu, quando sua devoção na Igreja já estava consolidada, o bem-aventurado João Paulo II proclamou Santa Teresinha do Menino Jesus doutora da Igreja. Na ocasião, o Papa sublinhava o aspecto extraordinário daquele evento:
"A ninguém passa despercebido (...) que hoje está a realizar-se algo de surpreendente. Santa Teresa de Lisieux não pôde frequentar uma Universidade e nem sequer os estudos sistemáticos. Morreu jovem: entretanto, a partir de hoje será honrada como Doutora da Igreja, qualificado reconhecimento que a eleva na consideração da inteira comunidade cristã, muito para além de quanto possa fazê-lo um 'título académico'." 

"Com efeito, quando o Magistério proclama alguém Doutor da Igreja, tem em vista indicar a todos os fiéis, e de modo especial a quantos na Igreja prestam o fundamental serviço da pregação ou exercem a delicada tarefa da investigação e do ensino teológico, que a doutrina professada e proclamada por uma determinada pessoa pode ser um ponto de referência, não só porque está em conformidade com a verdade revelada, mas também porque traz nova luz acerca dos mistérios da fé, uma compreensão mais profunda do mistério de Cristo." 

(...) 

"Entre os 'Doutores da Igreja', Teresa do Menino Jesus e da Santa Face é a mais jovem, mas o seu ardente itinerário espiritual demonstra muita maturidade, e as intuições da fé expressas nos seus escritos são tão vastas e profundas, que a tornam digna de ser posta entre os grandes mestres espirituais."05 
A grandeza da doutrina de Santa Teresinha, que fez o beato João Paulo II chamá-la de "mestra da fé e da vida cristã"06, manifesta-se de modo especial na conhecida obra "História de uma alma".

É particularmente no conhecido "Manuscrito B" deste livro, uma carta escrita a seu punho à Irmã Maria do Sagrado Coração, que está compendiada a sua doutrina espiritual. Esta, por sua vez, resume-se em uma palavra: o amor. Quem lê sobre a vida de Teresa, nota que aquilo que ela ensinava às suas noviças e às suas irmãs não consistia nem na realização de penitências heroicas nem em um método de oração específico. Embora tenha recebido alguns dons místicos, como o da transverberação07, ela não recebeu carismas gratia gratis data08. Para Teresinha, todo o caminho da santidade resumia-se ao amor.

Este consistia, em primeiro lugar, em esquecer-se de si mesma, voltando-se totalmente a Jesus, em uma gratidão imensa pelo amor que Ele manifestava a ela. Em um de seus escritos, ela conta que, enquanto rezava, lhe veio um pensamento de que no inferno ninguém amava a Jesus, nada que vinha do inferno agradava ao Seu coração. Ela, então, dentro do que chama de "loucura", diz que gostaria de ir ao inferno para, de lá, louvar a Deus.

É famosa a passagem da carta à sua irmã Maria em que ela compreende que o amor tudo faz:
"Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja, que se o Amor se extinguisse, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os Mártires se recusariam a derramar seu sangue..... Compreendi que o AMOR ENCERRAVA TODAS AS VOCAÇÕES, QUE O AMOR ERA TUDO, QUE ELE ABRANGE TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES... NUMA PALAVRA QUE ELE É ETERNO!..........." 


"Então no excesso de minha alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, meu Amor..... minha Vocação, enfim eu a encontrei, MINHA VOCAÇÃO É O AMOR!...." 

"Sim encontrei meu lugar na Igreja e esse lugar, ó meu Deus, foste tu que mo deste.... no Coração da Igreja, Madre, eu serei o Amor... assim serei tudo.... assim meu sonho será realizado!!!...."09 
Para entender o que Teresa quer dizer com amor, é importante olhar para a teologia da caridade: existem um amor natural e um amor sobrenatural. Um amor natural pode ser virtuoso, mas também pode ser abusado: pode transformar-se em luxúria, em apego, em obsessão possessiva. O amor sobrenatural (agape), ao contrário, é uma virtude com um único objeto formal. De fato, a caridade pode ter inúmeros objetos materiais – pode-se amar a Deus, a si mesmo ou ao próximo –, mas o seu objeto formal é Deus apenas. Quando se tem amor sobrenatural, ama-se a Deus, mas não pelo temor do inferno ou pela recompensa do Céu, senão por Ele mesmo. É como diz um famoso soneto atribuído a São João de Ávila: "No me mueve, mi Dios, para quererte / el cielo que me tienes prometido; / ni me mueve el infierno tan temido / para dejar por eso de ofenderte. / Tú me mueves, señor; muéveme el verte / clavado en una cruz y escarnecido; / muéveme ver tu cuerpo tan herido; / muévenme tus afrentas y tu muerte. – Não me move, meu Deus, para querer-te / o Céu que me tens prometido; / nem me move o inferno tão temido / para deixar por isso de ofender-te. / Tu me moves, senhor; move-me o ver-te / cravado em uma cruz e escarnecido; / move-me ver teu corpo tão ferido; / movem-me tuas afrontas e tua morte."10

Santa Teresinha amava a Deus de forma muito simples. Ela fazia com que tudo no seu dia a dia se transformasse em amor. Em um dia de calor, por exemplo, não enxugava o suor do seu rosto, em sinal de mortificação, porque Jesus tinha sangue na face quando era crucificado. Ela realizava pequenas penitências com um amor grandioso: fazia as coisas ordinárias com uma caridade extraordinária. E, assim, transformando tudo em um grande ato de amor, ela conseguiu, heroicamente, passar por uma tuberculose, a última paixão de sua vida.

A sua conhecida "pequena via" consiste, pois, em fazer as coisas do dia a dia com verdadeiro amor sobrenatural. "A sua mensagem (...) não é senão a via evangélica da santidade para todos"11, a "vocação de todos à santidade na Igreja"12, que o Concílio Vaticano II proclamou com grande ênfase. Se, olhando para a vida de alguns santos, que Teresinha chama por vezes de "águias", a santidade parece-nos um caminho íngreme e inalcançável, a "pequena via" oferece um caminho às almas mais pequeninas – une légion de petites âmes.

Este amor que Teresa nutria para com Deus também se concretizava no amor ao próximo. Pode parecer surpreendente, mas ela só foi compreender de modo profundo o que era o amor ao próximo no seu último ano de vida, conforme escreveu:
"Neste ano, Madre querida, Deus me deu a graça de compreender o que é a caridade; eu o compreendia antes, é verdade, mas de uma maneira imperfeita, não tinha aprofundado esta parábola de Jesus: 'O segundo mandamento é SEMELHANTE ao primeiro: Amarás teu próximo como a ti mesmo.' Eu me aplicava sobretudo a amar a Deus e é amando-o que compreendi que não era preciso que meu amor se traduzisse somente por palavras, pois 'Não são aqueles que dizem Senhor, Senhor! Que entrarão no reino dos Céus, mas aqueles que fazem a vontade de Deus'." (...) 


"Como Jesus amou seus discípulos e por que os amou? Ah! não eram suas qualidades naturais que podiam atraí-lo, havia entre eles e Ele uma distância infinita, Ele era a ciência, a Sabedoria Eterna, eles eram pobres pecadores ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Entretanto, Jesus os chama seus amigos, seus irmãos." 

(...) 

"Madre bem-amada, ao meditar essas palavras de Jesus, compreendi quanto meu amor por minhas irmãs era imperfeito, vi que não as amava como Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se espantar com sua fraqueza, em edificar-se com os menores atos de virtudes que se vê sendo praticados, mas sobretudo compreendo que a caridade não deve ficar encerrada no fundo do coração: Ninguém, disse Jesus, acende uma lamparina para pô-la debaixo do alqueire, mas se põe no candelabro, a fim de que ilumine TODOS os que estão na casa. Parece-me que a lamparina representa a caridade que deve iluminar, alegrar, não somente os que me são os mais caros, mas TODOS os que estão na casa, sem excetuar ninguém."13 
Teresa conta, mais adiante, como começou a colocar em prática esta caridade cuja profundeza tinha compreendido melhor:
"Encontra-se na comunidade uma irmã que tem o talento de me desagradar em todas as coisas, suas maneiras, suas palavras, seu caráter me pareciam muito desagradáveis, no entanto é uma santa religiosa que deve ser muito agradável a Deus, por isso não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse a mim que a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas nas obras; então / apliquei-me a fazer por essa irmã o que teria feito para a pessoa que mais amo. (...) Um dia, na recreação, ela me disse mais ou menos estas palavras com um ar muito contente: 'Poderíeis dizer-me, Ir. T[eresa] do Men[ino] Jesus, o que vos atrai tanto para mim, a cada vez que me olhais, vos vejo sorrir?' Ah! o que me atraía, era Jesus escondido no fundo de sua alma... Jesus que torna doce o que há de mais amargo..."14 
O bem maior que Teresinha quer fazer a seus devotos, mais que os milagres alcançados por sua intercessão, é ensinar-lhes o caminho da santidade. Então, vamos, com coragem, trilhar este caminho, junto com a pequena Teresa.

Referências

  1. Santa Teresa do Menino Jesus. Obras completas escritos e últimos colóquios. 1. ed. Paulus: São Paulo, 2002. p. 916.
  2. Na bula Vehementer exultamus hodie, de 17 de maio de 1925, com a qual Santa Teresa foi canonizada, Pio XI reconhecia: "Durante sua vida ela era conhecida apenas por alguns, mas imediatamente após a sua santa morte, sua fama se estendeu de forma maravilhosa em todo o mundo cristão, por conta dos inumeráveis prodígios operados pelo Deus Todo-Poderoso através de sua intercessão. Parecia que, de fato, de acordo com sua própria promessa, ela estava derramando sobre a terra uma chuva de rosas."
  3. Mt 18, 3.
  4. Papa Pio XI, Omelia "Benedictus Deus" in onore di Santa Teresa del Bambin Gesù, 17 de maio de 1925.
  5. Papa João Paulo II, Homilia por ocasião da atribuição do título de Doutora da Igreja a Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, 19 de outubro de 1997, n. 3-4.
  6. Papa João Paulo II, Carta Apostólica Divini Amoris Scientia, 19 de outubro de 1997, n. 8.
  7. Fenômeno pelo qual o coração de uma pessoa escolhida por Deus é atravessado por uma flecha misteriosa, deixando na alma uma "ferida" de amor. Passaram por esta experiência homens como Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz e São Pio de Pietrelcina.
  8. Gratia gratis data: o dom livremente oferecido a pessoas específicas para a salvação de outras. A esta espécie de graças pertencem os chamados carismas (profecia, dom de milagres, dom de línguas), o poder sacerdotal de consagração e absolvição e o poder hierárquico de jurisdição.
  9. Manuscrito B, 3v. Cf. História de uma alma: nova edição crítica por Conrad de Meester.4. ed. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 312.
  10. A Cristo crucificado (Anónimo) – Wikisource.
  11. Papa João Paulo II, Carta Apostólica Divini Amoris Scientia, 19 de outubro de 1997, n. 2.
  12. Cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, capítulo V. "Todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" (n. 39).
  13. Manuscrito C, 11v-12r. Cf. História de uma alma: nova edição crítica por Conrad de Meester. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 245-246.
  14. Manuscrito C, 13v-14r. Cf. Ibidem, p. 248-249.