terça-feira, 23 de agosto de 2016

História de Santa Rosa de Lima


Nascida em Lima, no Peru, em 30 de abril de 1586, com o nome de Isabel Mariana de Jesus Paredes Flores y Oliva. Ainda criança, ouvira de uma índia, Mariana que era bonita como uma rosa e todos da família logo concordaram, assim, este tornou-se seu apelido. Também nos tempos de menina conta-se que ela mesma disse que gostaria de ser chamada como Rosa de Santa Maria.

Sua infância foi marcada por grandes momentos de oração e meditação, tornou-se devota de Nossa Senhora e recorria sempre à proteção da Virgem Mãe de Deus. Em sua história há relatos de que certo dia, Rosa rezava para sua imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus em seus braços e ouviu uma voz que vinha da imagem assim dizendo: “Rosa, dedique a mim todo o seu amor…”

E assim, a menina Rosa decidiu que dali em diante atenderia ao apelo de Deus e dedicaria sua vida e seu amor somente a Jesus. Mesmo ao longo da vida quando recebia propostas de casamento, Rosa afirmava categoricamente que era fiel a Jesus: “o prazer e a felicidade que o mundo pode me oferecer são simplesmente uma sombra em comparação com o que sinto”. Nessa época também decidiu cortar seus longos cabelos e cobrir seu rosto com véu.

Rosa era sempre comprometida com suas orações, ainda que tivesse muito trabalho como doméstica ou na lavoura. Além disso, ela visitava frequentemente os pobres e enfermos. Muitos milagres de curas, conversões, propiciações de chuvas e amenizações do clima são atribuídos a santa.

Um fato de destaque sobre Rosa era que, por ser devota de Nossa Senhora, sempre fazia pedidos a Santa Virgem para que houvesse o crescimento da Igreja, sobretudo entre os indígenas americanos.

Em certa ocasião, pediu a Nossa Senhora para que a indicasse em qual ordem ela deveria servir e, assim, rezava sempre com esse pedido. Com a prece diária, Rosa notou que sempre que orava surgia uma borboleta preta e branca. Compreendendo isso como um sinal de Deus, Rosa entendeu que deveria ingressar na Ordem Terceira da Congregação de São Domingos, cujas vestimentas eram nas cores preto e o branco. As cores da pequena borboleta que a visitava diariamente eram as mesmas do hábito de Santa Catarina de Sena, a santa pela qual tinha tanta devoção e a quem deseja tanto imitar. Em 1606, aos vinte anos, ingressou na Ordem Terceira Dominicana.

A partir disso, todo ano durante a festa de São Bartolomeu Rosa passava o dia em oração, aos que perguntavam o porquê, ela dizia: “É porque este é o dia das minhas núpcias eternas”. A cada 24 de agosto o fato se repetia em 1617, Rosa não suportou mais uma grave enfermidade e veio a falecer no dia de São Bartolomeu com apenas 31 anos.

Seu túmulo, os locais onde viveu e trabalhou pela Igreja bem cedo tornaram-se locais de peregrinações. Muitos milagres começaram a acontecer. A beatificação de Rosa de Santa Maria deu-se no ano de 1667, logo no primeiro ano do pontificado do Papa Clemente IX. A concretização de sua canonização demorou um pouco mais para acontecer. O Papa Clemente X relutava em elevá-la à glória dos altares. Mas o Papa convenceu-se de que deveria canonizá-la depois que presenciou uma milagrosa chuva de pétalas de rosas que caiu sobre ele e que todos atribuíram à ação da Beata Rosa de Santa Maria.

Clemente X a canonizou em 12 de abril de 1671. Rosa, a menina que um dia foi crismada por São Turíbio de Mongrovejo, passou a ser conhecida no mundo católico como Santa Rosa de Lima. Era a primeira mulher da América a receber essa honra tão excelsa. Santa Rosa de Lima é a padroeira da América Latina e das Filipinas.

Fonte: Via Lumina

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Amor e Responsabilidade: a lei do dom – compreendendo os dois aspectos do amor

Por Edward P. Sri

Como uma pessoa pode saber se está em um relacionamento de amor autêntico e comprometido, ou se está apenas em mais um romance desapontador que não vai resistir ao teste do tempo?
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Esse é o assunto sobre o qual João Paulo II – então Karol Wojtyla – se debruça na próxima seção de seu livro, “Amor e Responsabilidade”, quando ele discute os dois aspectos do amor.

De acordo com Wojtyla, existem dois aspectos do amor, e compreender a diferença é crucial para qualquer casamento, noivado ou namoro. Por um lado, temos o que está acontecendo dentro de nós quando nos sentimos atraídos por uma pessoa do sexo oposto.

Quando um rapaz encontra uma garota, ele experimenta uma série de sentimentos e desejos poderosos em seu coração. Ele pode se encontrar fisicamente atraído pela beleza do corpo dela, ou se perceber pensando constantemente nela em uma atração emocional. Essa dinâmica interior do desejo sensual (sensualidade) e do amor emocional (sentimentalidade) molda em grande parte a maneira com que o homem e a mulher interagem um com o outro, e é isso que faz o romance, especialmente em seus estágios iniciais, ser tão emocionante para o casal envolvido.

Entretanto, esse é apenas um aspecto do amor, que não deve ser igualado ao amor no sentido mais pleno. Nós sabemos da experiência que podemos ter fortes emoções e desejos por outra pessoa sem necessariamente estar comprometido com ela, ou sem a pessoa estar verdadeiramente comprometida conosco em uma relação de amor.

É por isso que Wojtyla coloca o aspecto subjetivo do amor em seu devido lugar. Ele nos desperta e nos lembra que, não importa o quão forte experimentemos essas sensações, isso não é necessariamente amor, mas simplesmente uma “situação psicológica”. Em outras palavras, por si só, o aspecto subjetivo do amor nada mais é do que uma experiência prazerosa que está acontecendo dentro de mim.

Essas emoções e desejos não são ruins, e podem se desenvolver dentro do amor, e até enriquecê-lo, mas não devemos vê-los como sinais infalíveis do amor autêntico. Wojtyla diz: “É impossível julgar o valor de um relacionamento entre duas pessoas meramente a partir da intensidade de suas emoções... O amor se desenvolve com base em uma atitude totalmente comprometida e totalmente responsável de uma pessoa para outra pessoa”; enquanto que ao mesmo tempo os sentimentos românticos “nascem espontaneamente das reações sensuais e emocionais. Um crescimento muito rápido e muito rico de tais sensações pode esconder um amor que falhou em se desenvolver” (Amor e Responsabilidade).

Direcionando o amor para as reações interiores

Os homens e as mulheres hoje são bastante suscetíveis a cair nessa ilusão de amor, pois o mundo moderno direcionou o amor para as reações interiores, focando-se primariamente no aspecto subjetivo. No último artigo, escrevi sobre o fenômeno do “amor hollywoodiano”, que nos diz que o amor será mais forte quanto mais forte forem nossas emoções. Wojtyla, entretanto, enfatiza que há uma outra faceta do amor que é absolutamente essencial, não importando quão fortes sejam nossas emoções e desejos. A esse aspecto ele chamou de “objetivo”.

Esse aspecto tem uma série de características objetivas que vão além dos sentimentos prazerosos que experimento no nível subjetivo. O verdadeiro amor envolve virtude, amizade, e a busca de um bem comum. No casamento cristão, por exemplo, marido e mulher se unem pelo bem comum de ajudarem um ao outro a crescer em santidade, aprofundar a união, e educar os filhos. Além disso, eles devem não apenas compartilhar esse objetivo em comum, mas possuir a virtude que os ajude a chegar lá.

É por isso que o aspecto objetivo do amor é muito mais do que um olhar interior para minhas emoções e desejos. É muito mais do que os prazeres que recebo da relação. Ao considerar o aspecto objetivo do amor, devemos discernir que tipo de relacionamento existe realmente entre eu e a pessoa que amo, e não simplesmente o que esse relacionamento significa para mim em meus sentimentos. A outra pessoa me ama mais pelo que sou ou me ama mais pelo prazer que recebe da relação? Meu(minha) amado(a) compreende o que é verdadeiramente melhor para mim? Ele(ela) tem a virtude para me ajudar a chegar ao que é melhor para mim? Estamos profundamente unidos por um objetivo comum, servindo um ao outro e lutando juntos por um bem comum que é maior do que cada um de nós? Ou estamos na verdade apenas vivendo lado a lado, compartilhando recursos e ocasiões agradáveis enquanto cada um persegue egoisticamente seus próprios projetos e interesses na vida? Esse são os tipos de questões que apontam para o aspecto objetivo do amor.

Agora podemos ver porque Wojtyla diz que o verdadeiro amor é “um fato interpessoal”, não simplesmente uma “situação psicológica”. Um relacionamento forte está baseado na virtude e na amizade, não simplesmente em experimentar juntos sentimentos agradáveis e situações prazerosas. Como explica Wojtyla, “o amor enquanto experiência deve estar subordinado ao amor enquanto virtude – de tal modo que sem o amor enquanto virtude não pode haver plenitude na experiência do amor” (Amor e Responsabilidade).

Amor doação de si

Uma das marcas mais distintivas do aspecto objetivo do amor é o dom de si mesmo. Wojtyla ensina que o que faz o amor comprometido diferente de todas as outras formas de amor (atração, desejo, amizade) é que as duas pessoas “se doam” uma para a outra. As pessoas não estão apenas atraídas uma pela outra, e elas não desejam simplesmente o que é melhor para a outra. No amor comprometido, cada pessoa se rende completamente à outra pessoa. “Quando o amor comprometido entra nessa relação interpessoal surge algo mais do que uma simples amizade: surgem duas pessoas que se entregam uma para a outra” (Amor e Responsabilidade).

De fato a idéia de amor auto-doação levanta alguns questionamentos importantes: como pode uma pessoa realmente se doar a outra? O que isso significa? Afinal de contas o próprio Wojtyla ensina que cada pessoa humana é completamente única. Cada pessoa tem sua própria mentalidade e sua vontade própria. No final, ninguém pode pensar por mim. Ninguém pode escolher por mim. Portanto, cada pessoa “é seu próprio mestre”, e não está disponível a ser entregue a outra pessoa. Então, em que sentido uma pessoa pode “se doar” a(o) seu(sua) amado(a)?

Wojtyla responde dizendo que é impossível para uma pessoa se doar a outra no nível natural e físico, mas na ordem do amor uma pessoa pode fazê-lo ao escolher limitar sua liberdade e unir sua vontade à da pessoa que ama. Em outras palavras, por causa do seu amor, uma pessoa pode na verdade desejar abdicar de seu próprio livre-arbítrio e ligá-lo ao da pessoa amada. Como Wojtyla diz, o amor “faz com que a pessoa queira exatamente isto – render-se ao(a) outro(a), à pessoa amada”.

A liberdade de amar

Por exemplo, considere o que acontece quando um homem solteiro se torna casado. Como solteiro, “Roberto” é capaz de decidir o que deseja fazer, quando deseja fazer, e como deseja fazer. Ele faz sua própria agenda. Ele decide onde vai viver. Ele pode se demitir de um emprego e se mudar para outra parte do país em um instante, se quiser. Ele pode deixar o apartamento uma bagunça. Ele pode gastar seu dinheiro do modo como quiser. E ele pode comer quando quiser, sair para onde quiser, e ir dormir quando quiser. Ele está acostumado a tomar sozinho as decisões de sua vida.

O casamento, entretanto, vai mudar de modo significativo a vida de “Roberto”. Se ele decide por conta própria se demitir do emprego, comprar um carro novo, viajar no final de semana, ou vender a casa, isso provavelmente não vai se encaixar muito bem com a vida da sua esposa! Agora que “Roberto” está casado, todas as decisões que ele estava acostumado a tomar por conta própria devem ser tomadas em união com sua esposa, e procurando o que for melhor para seu casamento e para sua família.

No amor de doação de si, um homem reconhece de modo profundo que sua vida já não é mais propriedade sua. Ele rendeu sua própria vontade à sua amada. Seus próprios planos, sonhos e gostos não estão completamente abandonados, mas agora eles são colocados em nova perspectiva. Eles estão subordinados ao bem de sua esposa e dos filhos que possam surgir do casamento. Como “Roberto” vai gastar seu tempo e seu dinheiro e como ele vai organizar sua vida já não é matéria de sua própria escolha pessoal. Sua família se torna o ponto de referência primário para tudo que ele for fazer.

Essa é a beleza do amor doação de si. Como solteiro “Roberto” tinha grande autonomia – ele podia organizar sua vida como quisesse. Mas, por causa de seu amor, “Roberto” escolheu livremente abdicar dessa autonomia, limitar sua liberdade, comprometendo-se com sua esposa e com o bem dela. O amor é tão poderoso que o impele a desejar render sua vontade à sua amada desse modo profundo.

Realmente muitos casamentos hoje em dia seriam muito mais sólidos se ao menos compreendêssemos e nos lembrássemos do amor de doação a que originalmente nos comprometemos. Ao invés de perseguir egoisticamente nossas próprias preferências e desejos, devemos nos lembrar que quando fizemos nossos votos escolhemos livremente render – amorosamente desejamos render – nossas vontades ao bem do(a) nosso(a) esposo(a) e dos filhos. Como Wojtyla explica: “A forma de amor mais plena consiste precisamente na auto-doação, em fazer do inalienável e intransferível ‘eu’ uma propriedade de outra pessoa” (Amor e Responsabilidade).

A lei do dom

Agora chegamos ao grande mistério do amor doação de si. No coração desse dom de si está uma convicção fundamental de que, ao render minha autonomia à pessoa amada, eu ganho muito mais em troca. Ao unir-me com outra pessoa, minha própria vida não fica diminuída, mas é profundamente enriquecida. Isso é o que Wojtyla chama de “lei do ekstasis”, ou lei da auto-doação: “O amante ‘sai de si mesmo’ para encontrar um existência mais plena no(a) outro(a)” (Amor e Responsabilidade).

Em uma época de vigoroso individualismo, entretanto, essa profunda afirmação de Wojtyla pode ser difícil de compreender. Por que devo sair de mim mesmo para encontrar a felicidade? Por que eu deveria me comprometer desse modo radical com outra pessoa? Por que deveria abdicar da liberdade de fazer o que quisesse com minha vida? Essas são as questões do homem moderno.

Entretanto, de uma perspectiva cristã, a vida não é para “fazer o que eu quiser”. A vida é para meus relacionamentos – é para encontrar a plenitude de meu relacionamento com Deus e com as pessoas que Deus colocou na minha vida. Na verdade, é aí que encontramos plenitude na vida: em viver bem nossos relacionamentos. Mas para viver bem nossos relacionamentos precisamos muitas vezes fazer sacrifícios, rendendo nossa vontade própria para servir ao bem dos outros. É por isso que descobrimos uma felicidade mais profunda na vida quando nos doamos desse modo, pois estamos vivendo do modo como Deus nos criou para viver, do modo como o próprio Deus vive: em um amor total, comprometido e de auto-doação. Como diz uma das passagens favoritas de Wojtyla retirada do Vaticano II: “O homem só se encontra ao fazer de si mesmo um dom sincero para os outros” (Gaudium et spes nr. 24).

Essa afirmação do Vaticano II se aplica especialmente ao matrimônio, onde o amor de auto-doação entre duas pessoas humanas se mostra mais profundamente. Ao me comprometer com outra pessoa em uma relação de amor verdadeiro eu certamente limito minha liberdade de fazer “o que quiser”. Mas ao mesmo tempo eu me abro para uma liberdade ainda maior: a liberdade de amar. Como explica Wojtyla: “O amor consiste em um compromisso que limita a liberdade da pessoa – é uma doação de si, e doar-se a si mesmo significa exatamente isso: limitar a própria liberdade em prol do(a) outro(a). A limitação da liberdade da pessoa pode parecer algo negativo e desagradável, mas o amor faz dessa limitação uma coisa positiva, criativa e cheia de alegria. A liberdade existe para que se possa amar” (Amor e Responsabilidade).

Portanto, enquanto o individualista moderno pode ver a auto-doação no matrimônio como algo negativo e restritivo, os cristãos veem tais limitações como libertadoras. O que eu realmente desejo fazer na vida é amar a Deus, minha esposa e meus filhos, e meu próximo – pois nesses relacionamentos encontro minha felicidade. E se eu existo para amar minha mulher e meus filhos e para viver totalmente comprometido a eles, eu devo evitar que meus desejos egoístas dominem minha vida e controlem minha casa. Em outras palavras, eu devo estar livre da tirania do “faço o que eu quero”. Só então é que sou livre para amar do modo como Deus me criou. Só então é que sou livre para ser feliz. Só então é que sou livre para amar.
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O Autor: Edward Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College em Atchinson, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.
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Traduzido de: http://catholiceducation.org/articles/marriage/mf0072.html
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sábado, 20 de agosto de 2016

A conversão de São Bernardo de Claraval


Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.

Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.
Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.
Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:
"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis.Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]
Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:
"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]
Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.
O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].
Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.
Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.
Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.
No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.
São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Recomendações

  • DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas (trad. Emérico da Gama). 2. ed. São Paulo: Quadrante, 2011, pp. 94-135.
  • LUDDY, Ailbe J.. Bernardo de Claraval (trad. Eduardo Saló). Lisboa: Editorial Aster, 1959.
  • RAYMOND, Pe. M.. Amor sem Medida: Crônica de uma Família (trad. Pe. Ivo Montanhese). Petrópolis: Vozes, 1964.
  • RIBADENEIRA, Pe. Pedro de. Vida de São Bernardo. In: Cristianismo.

Referências

  1. A conversão de São Bernardo, II, 9.
  2. Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
  3. A conversão de São Bernardo, III, 6.
  4. Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
  5. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

«Feliz o homem, que se compraz na Lei do Senhor e nela medita dia e noite» (Sl 1,1-2)

O que significa a Lei do Senhor? O Salmo 118 está todo ele repleto do desejo de conhecer a Lei do Senhor e de se deixar guiar por ela ao longo da vida. Pode ser que o salmista tenha pensado na Lei da Antiga Aliança. O seu conhecimento exigia efetivamente um estudo sobre a longevidade da vida e a sua concretização um esforço de vontade também ao longo da vida. Mas o Senhor libertou-nos do jugo da Lei. Podemos considerar como Lei da Nova Aliança o grande preceito do amor que encerra a Lei e os Profetas, tal como foi dito; de facto, o perfeito amor a Deus e ao próximo seria certamente um objeto digno de ser meditado a vida inteira. 

Mas, mais ainda, entendemos pela Lei da Nova Aliança o próprio Senhor Jesus, uma vez que a sua vida constitui para nós o modelo da vida que temos de viver. Deste modo, cumprimos a nossa regra quando mantemos incessantemente diante dos olhos a imagem do Senhor Jesus, para sermos configuradas com ela; o Evangelho é o livro que nunca acabaremos de estudar. Mas não encontramos o Salvador apenas nos relatos dos testemunhos da sua vida. Ele está presente no Santíssimo Sacramento, e as horas de adoração diante do supremo Bem, a escuta atenta da voz do Deus da Eucaristia são, a um tempo, «meditação da Lei do Senhor» e «velada de oração». No entanto, atingimos o mais alto grau quando «a Lei habita no nosso coração» (Sl 39,11).

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa 
«A História e o Espírito do Carmelo»

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Joguem a palavra "gênero" no lixo!



Ontem nós publicamos aqui a íntegra da primeira intervenção feita pelo Padre Paulo Ricardo na audiência pública da tarde de ontem (10), promovida pela Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres, da Câmara dos Deputados. O evento tinha como objetivo discutir "o significado da palavra 'gênero'" e prestar um verdadeiro serviço às mulheres do Brasil, já que a sua causa tem sido raptada nas últimas décadas por movimentos ideológicos absolutamente alheios aos seus interesses.

Hoje nós publicamos a sequência de sua fala, dada já ao final do evento, oportunidade que o sacerdote usou para esclarecer por que a palavra "gênero", afinal de contas, não deve ser utilizada no processo de produção das leis em nosso país.

O que aconteceu ontem na Câmara dos Deputados foi uma simples audiência, promovida por uma das muitas comissões parlamentares que existem em ambas as casas do parlamento federal.

Essa comissão que atende à "defesa dos direitos das mulheres", em especial, é emblemática por despertar, desde quando foi criada, no último dia 28 de abril, a ira e a insatisfação dos movimentos feministas e da bancada socialista no Congresso.

Talvez você se pergunte: mas por que essas pessoas que tanto dizem representar a causa das mulheres rejeitaram tão prontamente essa comissão?

A resposta está nas competências que lhe foram atribuídas quando do ato de sua criação (feita pela Resolução n. 15, de 2016). Embora previsse, por exemplo:
  • a discussão "de denúncias relativas à ameaça ou à violação dos direitos das mulheres" (art. 32, XXIV, a);
  • o incentivo e a fiscalização "de programas de apoio às mulheres chefes de família monoparentais" (art. 32, XXIV, c);
  • o "monitoramento da saúde materno-infantil e neonatal, dos programas de apoio a mulheres em estado puerperal, em especial nas regiões mais carentes" (art. 32, XXIV, d); e
  • o fomento de "programas relativos à prevenção e ao combate à violência e à exploração sexual de crianças e de adolescentes do sexo feminino" (art. 32, XXIV, g),

A resolução em questão não contemplava entre as pautas da comissão recém-criada nem a palavra "gênero" nem os famigerados "direitos sexuais e reprodutivos da mulher" (que, como sabemos, não passam de sinônimo para "aborto"). O resultado? A comissão foi amplamente boicotada justamente por quem tanto diz representar a causa das mulheres. Ontem, na audiência pública, a ausência desses parlamentares e entidades civis foi sintomática, provando que seu compromisso não é com as mulheres do Brasil, mas sim com outra agenda ideológica, muito distante dos legítimos anseios femininos.

Não deixem de assistir e divulgar esse vídeo, para conscientizar as pessoas do que está acontecendo em nosso país, especialmente no Congresso Federal.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Assunção da Virgem Maria






Assunção de Maria torna-se para nós um sinal de esperança certa e de consolação!

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade...» (Lc 1, 39). As palavras deste trecho evangélico fazem-nos vislumbrar, com os olhos do coração, a jovem de Nazaré a caminho da cidade da Judeia, onde morava a sua prima, para lhe oferecer os seus serviços. Aquilo que nos surpreende acima de tudo, em Maria, é a sua atenção repleta de ternura pela sua parente idosa. Trata-se de um amor concreto, que não se limita a palavras de compreensão, mas que se compromete pessoalmente numa verdadeira assistência. À sua prima, a Virgem não dá simplesmente algo que lhe pertence; Ela dá-se a si mesma, sem nada exigir como retribuição. Ela compreendeu de maneira perfeita que, mais do que um privilégio, o dom recebido de Deus constitui um dever, que a empenha no serviço aos outros, na gratuidade que é própria do amor.

A minha alma proclama a grandeza do Senhor...(Lc 1, 46). No seu encontro com Isabel, os sentimentos de Maria brotam com vigor no cântico do Magnificat. Através dos seus lábios exprimem-se a expectativa repleta de esperança dos «pobres do Senhor», e a consciência do cumprimento das promessas, porque Deus «se recordou da sua misericórdia» (cf. Lc 1, 54).

É precisamente desta consciência que brota a alegria da Virgem Maria, que transparece no conjunto do cântico: alegria de saber que Deus olha para Ela, apesar da sua fragilidade (cf. Lc 1, 48); alegria em virtude do serviço que lhe é possível prestar, graças às grandes obras que o Todo-Poderoso realizou em seu favor; alegria pela antecipação das bem-aventuranças escatológicas, reservadas aos humildes e aos famintos (cf. Lc 1, 52-53).

Depois do Magnificat chega o silêncio; nada se diz acerca dos três meses da presença de Maria ao lado da sua prima Isabel. Talvez nos seja dita a coisa mais importante: o bem não faz ruído, a força do amor expressa-se na discrição tranquila do serviço quotidiano.

Mediante as suas palavras e o seu silêncio, a Virgem Maria aparece como um modelo ao longo do nosso caminho. Não se trata de um caminho fácil: em virtude da culpa dos seus pais primitivos, a humanidade traz em si a ferida do pecado, cujas consequências ainda continuam a fazer-se sentir nas pessoas remidas. Mas o mal e a morte não terão a última palavra! Maria confirma-o através de toda a sua existência, sendo testemunha viva da vitória de Cristo, nossa Páscoa.

Os fiéis compreenderam-no, reconhecendo nela «a mulher revestida de sol (Ap 12, 1), a Rainha que resplandece junto do trono de Deus e intercede em favor deles.

No dia de hoje, a Igreja celebra a gloriosa Assunção de Maria ao Céu, de corpo e alma. Os dois dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção estão intimamente ligados entre si. Ambos proclamam a glória de Cristo Redentor e a santidade de Maria, cujo destino humano já está perfeita e definitivamente realizado em Deus.

E quando Eu tiver partido e vos tiver preparado um lugar, voltarei e levar-vos-ei comigo para que, onde Eu estiver, vós estejais também, disse-nos Jesus (Jo 14, 3). Maria é o penhor e o cumprimento da promessa de Cristo. A sua Assunção torna-se para nós um sinal de esperança certa e de consolação (Lumen gentium, 68).

João Paulo II, Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, 15 de Agosto de 2004

Amor e Responsabilidade: sobre a razão e a sentimentalidade

Por Edward P. Sri

Como o "Sr. Certinho" acabou se tornando tão errado? Muitos jovens tiveram a experiência de “sentir” que estavam apaixonados por alguém que, à primeira vista, parecia absolutamente maravilhoso(a), tudo isso só para ficar muito desapontado(a) com a pessoa, desiludido(a) com o relacionamento, e talvez até descrente no sexo oposto como um todo.
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Em seu livro “Amor e Responsabilidade”, João Paulo II – então Karol Wojtyla – explica porque isso acontece com tanta frequência a homens e mulheres, e como podemos evitar essas desilusões no futuro.

Mais do que o físico

No último artigo vimos um poderoso aspecto da atração entre homem e mulher: a sensualidade. E vimos como essa atração física a maioria das vezes se caracteriza por um desejo de usufruir do corpo da outra pessoa como um objeto de prazer.

Há um segundo tipo de atração, entretanto, que vai além do desejo sexual pelo corpo, e que Wojtyla chama de “sentimentalidade”. Ela representa mais do que uma atração emocional entre os sexos.

Por exemplo, quando um rapaz conhece uma garota, além de notar sua beleza, ele também pode ficar bastante atraído pela sua feminilidade, sua personalidade acolhedora, sua graciosidade – ou, como Wojtyla chama, seu “charme” feminino. Do mesmo modo, quando a garota encontra um rapaz, ela pode não apenas reconhecer que ele é bonito, mas também descobrir em si mesma fortes sentimentos e admiração por sua masculinidade, suas virtudes, o modo como ele se porta – ou, como Wojtila chama, sua “força” masculina.

Tais reações emocionais para com pessoas do outro sexo acontecem o tempo todo. Elas podem evoluir gradativamente entre um homem e uma mulher, ou podem acontecer desde o primeiro instante em que se encontram. Podemos experimentar sentimentos afetuosos pelo cônjuge, um colega de trabalho, ou um amigo(a) de longa data. Ou podemos experimentá-los por uma pessoa que conhecemos em uma reunião, um estranho que vemos no shopping, ou mesmo um personagem fictício que vemos na TV.


A sentimentalidade pode ser parte do que leva ao amor autêntico. Mas, se não tomarmos cuidado, podemos facilmente ficar escravos de nossas emoções de maneiras tais que nos impede de sermos verdadeiramente capazes de amar outras pessoas.

Um navio afundando

O amor deve integrar nossas emoções. Em sua forma plena, o amor não deve ser uma decisão fria e calculada, isenta de sentimentos. Um esposo que diz: “Querida, eu te amo. Eu não tenho sentimentos de modo algum por você, mas saiba que lhe sou fiel”, não é a situação ideal. Nossas emoções devem ser incluídas no compromisso que firmamos para com a pessoa amada, enriquecendo o relacionamento e nos dando uma experiência ainda mais profunda de união com a outra pessoa. Como explica Wojtyla, “O amor sentimental mantém duas pessoas juntas, as faz ficar – mesmo quando estão fisicamente distantes – se movendo ‘na órbita’ um do outro... Uma pessoa nesse estado de espírito permanece mentalmente sempre perto da pessoa com quem ele ou ela tem laços de afeição” (Amor e Responsabilidade).

Entretanto, Wojtila se preocupa com o fato de que muitas pessoas hoje em dia pensam no amor apenas em termos de sentimentos. Suas preocupações parecem totalmente aplicáveis à uma cultura como a nossa, na qual canções de amor, filmes de romance e programas de TV estão constantemente apelando para nossas emoções, e nos fazendo desejar relacionamentos de rápido e emocionante envolvimento sentimental, como aquele envolvimento que Tom Hanks e Meg Ryan parecem ter nos filmes.

O verdadeiro amor, entretanto, é muito diferente do “amor de Hollywood”. O verdadeiro amor requer muito esforço. É uma virtude que envolve sacrifício, responsabilidade, e um total compromisso com a outra pessoa. O “amor de Hollywood” é uma emoção. É algo que apenas acontece com você. O foco não está em um compromisso com a outra pessoa, mas no que acontece dentro de você – os poderosos sentimentos agradáveis que você experimenta quando está com essa outra pessoa.

O fenômeno do filme “Titanic”, no final dos anos 90, mostra quantas pessoas se deixam levar pela ilusão do “amor de Hollywood”. Milhões de jovens retornavam várias vezes ao cinema para experimentar o romance emocionalmente intenso entre dois personagens do filme – um romance que se desenvolve entre duas pessoas que não se conhecem realmente, e que não possuem verdadeiro compromisso uma com a outra, mas que ainda assim era visto pelos espectadores como o tipo de amor ideal que duraria uma vida toda. Com esse tipo de modelo a imitar, não é de se surpreender que tantos de nossos relacionamentos na vida real terminem em um barco furado.

Claro que nossos sentimentos podem e devem ser incorporados em um amor plenamente desenvolvido (um tema que desenvolveremos em artigos posteriores). Entretanto, quando somos levados pela emoção acabamos evitando uma questão muito importante que é crucial para a estabilidade a longo prazo de um relacionamento: a questão da verdade. Devemos primeiramente e acima de tudo considerar a verdade sobre a outra pessoa, e a verdade sobre a qualidade do relacionamento com ele ou ela.

Evitando a questão da verdade

Um perigo de fazer dos sentimentos uma medida do nosso amor é que nossos sentimentos podem ser muito enganadores. Na verdade, Wojtyla diz que os sentimentos, em si, são “cegos”, pois não estão preocupados em saber a verdade sobre a outra pessoa. Portanto, nossos sentimentos sozinhos não são uma boa referência para guiar nossos relacionamentos.

Ele explica que descobrimos a verdade através do uso da nossa razão. Eu sei que 2 + 2 = 4 não porque eu sinta que é igual a 4. Eu chego à certeza dessa verdade através da minha razão. Nossos sentimentos, por outro lado. Não têm como tarefa a busca da verdade, diz Wojtyla.

Portanto, nossos sentimentos não serão de muita ajuda como guia para ver a verdade honesta sobre a outra pessoa e a verdade sobre o relacionamento. “Os sentimentos nascem espontaneamente – a atração que uma pessoa sente por outra geralmente começa de repente e de forma inesperada – mas essa reação é um efeito ‘cego’” (Amor e Responsabilidade).

Isso se torna especialmente claro quando consideramos o que aconteceu com nossas emoções depois do pecado original. Antes de o pecado entrar no mundo, o intelecto do homem facilmente direcionava sua vontade para escolher o que é bom e guiar suas emoções de modo que suas paixões fossem direcionadas para aquele bem.

Depois da queda do pecado original, entretanto, o intelecto parece não enxergar a verdade claramente, a vontade está enfraquecida em sua resolução de buscar o que é bom, e nossas emoções já não estão corretamente ordenadas, ficam a vagar em várias direções. Portanto, agora experimentamos muita instabilidade na esfera emocional e muitos altos e baixos caóticos (amor-ódio, esperança-medo, alegria-tristeza etc.) em nossas vidas. Ainda assim, ironicamente, a visão moderna de amor nos diz para procurar precisamente nossos “sentimentos” – para olhar justo no meio dessa montanha-russa emocional – a fim de encontrar uma medida infalível de nosso amor. Não é de espantar que haja tanta confusão e instabilidade em nossos relacionamentos hoje em dia!

É realmente isso mesmo?

Além do mais, não apenas os sentimentos não possuem a tarefa de procurar a verdade, mas também os sentimentos podem ser tão fortes que turvam nossa maneira de ver a outra pessoa. Wojtyla explica que quando somos levados pelas nossos emoções, a sentimentalidade pode diminuir nossa habilidade de conhecer aquela pessoa como ele ou ela realmente é.

É por isso que Wojtyla afirma que, em qualquer atração e envolvimento emocional, a questão da verdade sobre a pessoa é crucial: “É realmente isso mesmo?”. Devemos nos perguntar: “Ele ou ela tem mesmo essas qualidade e virtudes pelas quais estou tão atraído?”. “Ele ou ela é realmente digno(a) de minha confiança?”. “Há algum problema em nosso relacionamento que eu esteja negligenciando?”.

Nosso sentimentos não lidam com essas importantes questões. Na verdade, nossos sentimentos geralmente nos levam a evitar essas questões, deixando-nos com uma percepção distorcida e exagerada da pessoa.

“É por isso que em qualquer atração... a questão da verdade sobre a pessoa pela qual se sente atraído é tão importante. Devemos levar em consideração a tendência, produzida por toda uma dinâmica da vida emocional, da pessoa evitar a questão ‘é realmente isso mesmo?’. Nessas circunstâncias a pessoa não se pergunta se a outra pessoa realmente possui os valores que – aos olhos da sua paixão – ela parece ter, mas principalmente não se pergunta se o sentimento que acabou de surgir é uma emoção verdadeira” (Amor e Responsabilidade).

Isso, repito, não quer dizer que os sentimentos sejam ruins. Mas eles não podem ser o primeiro critério para discernir a verdade honesta sobre outra pessoa ou para avaliar claramente um relacionamento.

Fora de proporções

Essa tendência de ser levado pelas emoções e de evitar questões sobre a verdade é característico do amor sentimental. Temos a tendência de exagerar o valor da pessoa pela qual nutrimos sentimentos, diminuir o peso de suas faltas, e ignorar problemas que existem no relacionamento.

Aqui Wojtyla faz uma afirmação incrível sobre o quanto nossos sentimentos podem controlar nossa percepção da outra pessoa pela qual estamos tão atraídos. “Aos olhos de uma pessoa sentimentalmente atraída por outra, o valor da pessoa amada... cresce enormemente – via de regra fora de qualquer proporção com relação ao seu real valor” (Amor e Responsabilidade).

Você entendeu? Wojtyla não disse que nos estágios iniciais do amor sentimental nós “às vezes” exageramos o valor da pessoa. Ele disse que isso acontece via de regra – nós fazemos isso o tempo todo! E ele não disse que temos a tendência de exagerar o valor da pessoa só um pouquinho. Nós tendemos a idealizar o valor da pessoa “fora de qualquer proporção” em relação a quem ele ou ela é na realidade.

Portanto, devemos entrar nos relacionamentos com nossos olhos bem abertos. Se nós ingenuamente dizemos que não idealizamos a outra pessoa de modo algum, isso provavelmente é um sinal de que já fomos muito longe da realidade. Nesses estágios iniciais do amor, se somos muito rápidos para notar três ou quatro qualidades na pessoa amada, devemos ser igualmente rápidos em admitir que provavelmente estamos caindo na tendência de exagerar essas qualidades. Como explica Wojtila, “Uma variedade de valores são atribuídos à pessoa amada, as quais ele ou ela não possui na realidade. Esses são valores ideais, não reais” (Amor e Responsabilidade).

Por que temos a tendência de idealizar aqueles por quem nos sentimos atraídos? Esses “valores ideais” são aqueles que desejamos, com todo nosso coração, encontrar em outra pessoa um dia. Eles existem em nossos desejos, aspirações e sonhos mais profundos. Quando finalmente encontramos alguém com quem se tem o menor grau de sintonia, nossas emoções rapidamente tendem a evocar esses valores ideais e projetá-los sobre a pessoa.

Usando as pessoas emocionalmente

Quando falamos de um homem usando uma mulher tendemos a pensar em termos de ele usando ela para seu prazer sexual. Entretanto, Wojtyla chama a atenção que homem e mulher podem usar um ao outro também para um prazer emocional. Um devoto homem cristão, ou mulher cristã, pode ter um namoro completamente casto, mas ainda assim estar usando a outra pessoa por causa dos “sentimentos legais” que experimenta quando estão juntos, pela segurança emocional de ter um(a) namorado(a), ou pelo prazer que deriva de imaginar o dia do casamento com essa pessoa e esperar que ele ou ela seja finalmente a pessoa certa.

Se eu caio em tal idealização sentimental, a pessoa amada não é de fato a recebedora de minhas afeições. Ao invés, a outra pessoa é mais uma oportunidade para mim de usufruir dessas poderosas reações emocionais que tomam meu coração. Nesse caso, não amo realmente a outra pessoa por ela mesma, mas acabo usando-a pelo prazer emocional que obtenho de estar com ela. Como explica Wojtyla, o(a) amado(a) que é idealizado(a) “se torna meramente uma ocasião para uma descarga, na consciência emocional da pessoa, dos valores que ele ou ela deseja com todo seu coração encontrar na outra pessoa” (Amor e Responsabilidade).

Desilusão

Talvez o efeito mais trágico da idealização sentimental é que nós terminamos sem sequer conhecer a pessoa pela qual nos sentimos tão atraídos. Por exemplo, um homem vivendo um amor sentimental pode procurar estar perto da amada, passar muito tempo com ela, conversar com ela, e até mesmo ir para a Missa com ela, e rezar por ela. Entretanto, se ele a idealizou, ele permanece bem distante dela – pois a poderosa afeição que ele sente por ela não depende de seu real valor, mas apenas dos “valores ideais” que ele projetou nela.

Inevitavelmente, essa sentimentalidade, quando não corrigida, resulta em grande desilusão. Pois quando a pessoa real não consegue corresponder ao ideal, os fortes sentimentos começarão a diminuir, e já não haverá muita coisa para segurar o relacionamento. O amante estará bem desapontado com a amada. Portanto, muito embora o casal possa dar toda aparência de estar emocionalmente em sintonia, eles permanecem de fato bastante divididos um do outro. Eles podem até nem se conhecer de verdade, e podem estar até mesmo usando um ao outro pelo prazer emocional que obtém dessa idealização.
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O Autor: Edward Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College em Atchinson, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.
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Traduzido de: http://catholiceducation.org/articles/parenting/pa0111.html
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