sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Onde é que foram parar todos aqueles padres pedófilos?


De repente, um grande silêncio sobre os abusos sexuais tomou conta da mídia. Por quê?


Você reparou que a avalanche de denúncias de abusos sexuais cometidos por clérigos praticamente desapareceu da mídia nos últimos meses? Você não acha estranho que, quase de repente, não se toque mais no assunto?

UMA ONDA CONCENTRADA

É inegável e tragicamente verdadeiro que houve, sim, uma quantidade escandalosa de comprovados abusos sexuais praticados por religiosos – um único abuso sexual já teria sido escandaloso e trágico, afinal. Também é fato que, ao longo de décadas, esses crimes cometidos por sacerdotes, religiosos e freiras ficaram escondidos sob uma camada complexa de medo e vergonha por parte das vítimas, chantagem e ameaças por parte dos criminosos, pressão e hipocrisia por parte de cúmplices poderosos.
Mesmo assim, é chamativo que, num espaço relativamente curto de tempo, tenham explodido milhares de denúncias contra padres a ponto de o assunto se transformar num escândalo global de dimensões inéditas. Chegou-se a produzir uma onda de generalizações que reduziu a palavra “sacerdote” a sinônimo de “pedófilo”, como se todos os padres cometessem “por natureza” esse crime, e os seminários e conventos católicos a antros de homossexualismo e orgias, como se tivessem ocorrido esses casos escabrosos dentro de todos eles.

UMA ONDA “SELETIVA”

Mais chamativo ainda, porém, é que não houve o mesmo frenesi na hora de abordar a realidade do abuso sexual em outras confissões cristãs, como as evangélicas ou a anglicana, só por citar dois exemplos, nem nas religiões não-cristãs, muito embora várias delas acumulem um histórico milenar de cumplicidade e incentivo à exploração sexual de crianças (meninas e meninos) e de mulheres adultas, inclusive dentro do casamento (monogâmico ou poligâmico), ou convivam com estupros em massa quase que com naturalidade.
Igualmente chamativa é a mínima intensidade com que se tratou e se trata da recorrência de abusos e assédios sexuais no âmbito corporativo, no mundo do esporte e da moda, no universo do cinema e da televisão e, principalmente, no dia-a-dia das famílias, que concentram a esmagadora maioria dos casos de abuso sexual. Nas ocasiões em que foram destapados alguns desses escândalos em contextos alheios à Igreja católica, a repercussão midiática foi notavelmente menor e mais breve do que no caso dos clérigos acusados de pedofilia. E isso que há casos envolvendo senadores, deputados e vereadores, governadores e prefeitos, juízes e autoridades policiais e do exército, além de figurões do mundo das finanças internacionais e dos impérios da mídia, no Brasil e fora dele. O silêncio é quase tão grande quanto o poder de silenciar que esses personagens exercem.

UMA ONDA PARCIAL

Outra questão também chamativa, clamorosa até, é a omissão ou minimização desonesta de todas as medidas que a Igreja católica já tomou e continua tomando para combater os abusos sexuais, dentro das suas estruturas e fora delas. A Igreja, afinal, não apenas adotou uma postura de “tolerância zero” muito mais efetiva do que as outras instituições no tocante aos próprios membros como também é, em muitos casos, a única entidade a denunciar e combater abusos sexuais sistemáticos, cometidos com a conivência da sociedade e do governo, contra crianças e adolescentes. É a realidade atual, por exemplo, da ilha de Marajó (veja aqui).
Este cenário de “critérios seletivos” obscuros por parte da mídia na hora de noticiar a realidade do abuso sexual é inquietante em si mesmo. Mas há outra face do assunto que também passa estranhamente despercebida nas pautas da mídia: quantas, de todas as denúncias registradas, contêm a verdade?

UMA ONDA AUMENTADA

É bastante significativo que, em 2012, ainda no auge do barulho em torno aos casos de abuso sexual envolvendo o clero católico, tenham passado quase em brancas nuvens informações alarmantes como esta:
Nas Varas de Família da cidade do Rio de Janeiro, falsas denúncias de abuso sexual podem chegar a 80% dos registros (…) Na maioria dos casos, a mãe está recém-separada e denuncia o pai para restringir as visitas (…) A invenção muitas vezes é discreta. O adulto denunciante vai convencendo a criança aos poucos de que a agressão realmente aconteceu (…) Na Vara da Infância e Adolescência de São Gonçalo, a realidade é parecida: cerca de 50% dos registros de abuso sexual são forjados (…) Quando a criança é muito pequena, tem dificuldade para diferenciar a fantasia da realidade. Se repetem que sofreu o abuso, aquilo acaba virando uma verdade para ela (…) Essa “verdade” provoca tantos danos psicológicos à vítima quanto um abuso sexual verdadeiro, afirmam os especialistas. A criança pode crescer com baixa autoestima, ter dificuldades na escola e problemas de relacionamento (Jornal Extra, 27/05/2012).
Se as falsas acusações de abuso sexual chegam a absurdos 80% dos registros envolvendo familiares, qual será a porcentagem de falsas acusações envolvendo padres e freiras?

UMA ONDA INDUZIDA?

E por que são feitas tantas falsas acusações?
Em boa parte dos casos, como os citados acima, existe má fé deliberada. Mas podem não ser poucos os casos em que o denunciante foi induzido a acreditar que de fato sofreu um abuso, mesmo que o abuso nunca tenha acontecido. Sobre essas “falsas memórias”, é interessante considerar o conteúdo deste breve vídeo que explica a influência da sugestão e da manipulação na formação de “lembranças”:


Resta, enfim, muita coisa a ser estudada e explicada com mais objetividade, seriedade e imparcialidade. Enquanto isso, a julgar pelas pautas da mídia, subitamente vivemos num mundo em que os abusos sexuais são quase uma coisa do passado e restrita a certos ambientes “muito perigosos”, como a Igreja católica…

Fonte: Aleteia

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

4 fatos surpreendentes sobre o poder da Eucaristia

Ela é obra e dom de toda Trindade


A Eucaristia nos é dada como obra e dom de toda a Trindade” (Pe. Raniero Cantalamessa, OFM)

Uma amiga me contou, dias atrás, que seu pai ajudava a mãe na cozinha em várias tarefas, inclusive em uma bem tediosa: descascar nozes, classificá-las e guardá-las em sacos – e depois dar uma parte delas a amigos e familiares. Ele faleceu. Alguns meses mais tarde, minha amiga foi pegar algumas das nozes no freezer e parou para pensar, com carinho, que seu pai tinha partido, mas deixara aquele alimento cuidadosamente pronto.

Não foi difícil para essa minha amiga traçar um paralelo quase imediato com a Eucaristia. Quando Jesus sabia que estava prestes a ascender ao céu, deixou para os seus amigos não apenas alimento terreno que os nutrisse, mas seu próprio Corpo e Sangue.

Estamos cuidados.

Estamos bem cuidados.

Temos um Pai celestial que conhece todas as nossas necessidades e cuida de satisfazê-las. Nosso pão de cada dia não é só um símbolo ou só uma subsistência terrena: é verdadeiro alimento espiritual, é a Carne real e o Sangue real de nosso Salvador, Deus feito homem. A Eucaristia é o alimento que transcende a cerimônia e tem sua essência e seu poder enraizados na própria Trindade.

Eis alguns dos efeitos surpreendentes da Eucaristia:

1) União com Cristo: receber Jesus na Eucaristia funde o nosso ser com o de Cristo. São Cirilo de Alexandria o descreve como “quando a cera derretida se funde com outra cera”. A jornada cristã consiste em tornar-se como Cristo, em “permanecer nele” – e Ele em nós. A Eucaristia é o meio para que isto aconteça.

2) Destruição do pecado venial: a Eucaristia destrói o pecado venial. Destrói! O fervor da nossa caridade pode ser afetado pelo pecado venial, mas, quando recebemos a Eucaristia, nos unimos à própria Caridade, que queima todo vestígio de pecado venial e nos deixa limpos, prontos para recomeçar.

3) Preservação contra o pecado mortal: assim como devemos abster-nos de receber a Eucaristia quando conscientes de estar em pecado mortal, também devemos recebê-la tanto quanto possível quando em graça, porque ela nos preserva e nos ajuda a evitar o pecado grave. O poder da Eucaristia lava o pecado venial da nossa alma e a recobre de uma “camada protetora” contra o pecado mortal!

4) Relação pessoal com Jesus: todo cristão sabe da importância da relação pessoal com Jesus, mas é principalmente através da Eucaristia que podemos realmente viver o encontro com a Pessoa de Jesus, presente na Hóstia Santa. Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, nos esclareceu:

Há hoje uma necessidade de redescobrir que Jesus Cristo não é apenas uma convicção privada ou uma ideia abstrata, mas sim uma Pessoa real, cuja participação na história humana é capaz de renovar a vida de cada homem e de cada mulher. Por isso, a Eucaristia, como fonte e ápice da vida e da missão da Igreja, deve ser traduzida em espiritualidade, em uma vida vivida ‘de acordo com o Espírito’“.

Fonte: Aleteia

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ratisbona e a intolerância do secularismo ocidental




Há uma intolerância e um fanatismo vigentes no Ocidente, muito semelhantes, em essência, àqueles que imperam no mundo islâmico. É o que o Papa Bento XVI tentou alertar, sem sucesso, em Ratisbona.



Por John H. Boyer* | Os ataques terroristas de 11 de setembro acabaram de completar 15 anos. Com eles, no dia seguinte, completou seu décimo aniversário o famoso discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, na Alemanha. Ainda que a controvérsia sobre essa breve exposição se tenha concentrado nos comentários do Papa a respeito do Islã e da violência, a principal crítica do pontífice era direcionada não ao Islã, mas ao Ocidente.
O propósito de Ratzinger era prover "uma crítica à razão moderna a partir do seu interior", mostrando as autorrestrições que ela tem imposto a si mesma e que a têm tornado incapaz de responder a questões fundamentais de moralidade e da existência humana. Essas autorrestrições advêm da ideia de que só seria possível conhecer o que se pode comprovar empiricamente. Dita posição — que encontra em Bacon e em Hume os seus pioneiros e no positivismo lógico do início do século XX, a sua expressão mais forte — é vista muito claramente hoje sob a forma de "cientificismo", ideologia segundo a qual todo conhecimento vem da ciência e qualquer coisa que não possa ser investigada por raciocínio dedutivo-hipotético, usando métodos quantitativos, não passa de crença e superstição irracional. O cientificismo não sustenta que os métodos matemáticos das ciências experimentais (e até das ciências sociais) sejam a melhor forma de descobrir a verdade; eles seriam, na verdade, o único meio de fazê-lo.
Como sublinha o Papa Bento XVI, esse estreitamento da razão acarreta inúmeras consequências. Em primeiro lugar, a razão moderna deve reconhecer que é incapaz de explicar seus próprios pressupostos. O cientificismo deve admitir "a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais operativas na natureza como um dado de fato, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico". O método científico em si mesmo não pode ser justificado usando o método científico, a ponto de podermos dizer inclusive que esse é um método "exclusivo" das ciências naturais. Em segundo lugar, não cabe à ciência comentar ou avaliar a racionalidade de crenças religiosas e asserções morais. A constrição que impossibilita o Ocidente de criticar ou dialogar com o Islã é a mesma que torna o secularismo ocidental incapaz e desinteressado de ouvir ou mesmo tolerar a moral cristã tradicional no próprio Ocidente.
A descrição de razão moderna feita pelo Pontífice pode ajudar-nos a entender melhor a relutância da esquerda atual em tentar dialogar com religiosos e conservadores no Ocidente. Por um lado, credos religiosos tendem a ser considerados intrinsecamente irracionais. Entendimentos tradicionais a respeito de complementaridade sexual, sexo e gênero, igualdade e justiça são vistos como se não tivessem qualquer base sólida. Isso ajuda a explicar por que, ao descreverem o que consideram intolerância, as pessoas vêm substituindo "ismos" por "fobias".
Ironicamente, a ligação que Ratzinger faz entre voluntarismo e coação, encontrada na teologia violenta da jihad — "está certo porque Deus quer e, se Ele mandar, também podemos impô-lo violentamente" —, aplica-se perfeitamente ao movimento revolucionário moderno. A esquerda secularista moderna é coerciva. Ao invés de tentar convencer seus oponentes raciocinando a partir de princípios comuns, o que ela procura fazer é silenciá-los. A atual ideologia de gênero surgiu praticamente do nada. Isso não significa dizer que não houve nenhuma estrutura intelectual da qual ela tenha advindo. Houve, sim, e trata-se de uma estrutura perturbadora. No entanto, sem qualquer debate ou tentativa de persuasão, pessoas comuns foram simplesmente informadas de que, agora, deveriam aceitar e jurar fidelidade a uma ideologia que reconhece homens travestidos de "mulheres". Quaisquer pessoas que não usem sua voz para louvá-los ou suas mãos para aplaudi-los não são apenas insensíveis como constituem casos de "fanatismo" e "intolerância", provenientes de uma "fobia" profundamente arraigada. Não pode haver nenhuma dissensão.
O mesmo pode ser observado na chamada teoria do "privilégio" e na sua prática nos campus das universidades. O apelo "Reveja seus privilégios" (Check your privilege), constante em sites de esquerda norte-americanos, não serve senão para afirmar que homens brancos, heterossexuais e "cisgêneros" devem reconhecer que possuem vantagens imerecidas na sociedade. É uma declaração de que eles não têm nenhum direito de opinar sobre questões de "interseccionalidade". Isso equivale à reivindicação de que as minorias detêm um lugar privilegiado para julgar o que é justo e injusto com base puramente em seu tom de pele, em sua "orientação sexual", em sua "identidade de gênero" etc. Se alguém de qualquer uma dessas classes "oprimidas" se sentir minimamente agredido, então o que quer que tenha acionado esses sentimentos de opressão deve ser considerado injusto e imoral. Não se trata de um juízo moral baseado em princípios comuns de racionalidade. "Eu não gosto, então está errado e você tem que respeitar os meus sentimentos" é um exemplo textual do ressentimento nietzscheniano, a "vontade de poder" exercida pelos ressentidos.
Analisando essa situação a partir dos comentários do Papa, percebemos que tudo isso não passa de uma forma diferente de voluntarismoA esquerda não quer usar argumentos recorrendo à razão; o que ela quer é encerrar toda e qualquer discussão. Acontece que a expressão "cala a boca" não é racionalidade, mas arbítrio puro e simples. Será que deveríamos surpreender-nos, no entanto, com um desenvolvimento desse tipo, quando o conceito moderno de razão definiu que questões morais e existenciais estão para além dos limites da investigação racional? Essa é a consequência de estreitar a esfera da razão ao que é puramente matemático. Raciocínios filosóficos sobre moralidade deixaram de ser científicos ou racionais. Se é assim, não há necessidade alguma de tentar convencer aqueles que discordam de você. Os outros devem simplesmente ser silenciados.
Isso tudo é bastante irônico, é claro. Os proponentes da "liberação" sexual, da confusão de gênero e de todas essas coisas demonizam a moral cristã como objetivamente retrógrada e errada — e falam com certeza e segurança morais. Acontece que o mesmo argumento, de que a fé cristã deve ser rejeitada como irracional por não ser científica, aplica-se igualmente à nova ortodoxia da esquerda. Como católicos, porém, não devemos meramente contentar-nos em apontar essa inconsistência. Afinal, se nosso único argumento for tu quoque ("você também"), acabamos abandonando a premissa de que os ensinamentos da Igreja têm fundamento e podem ser conhecidos e defendidos racionalmente.
Se é verdade que devemos defender nossa liberdade religiosa, não podemos simplesmente dizer: "Eu me oponho ao casamento gay porque sou católico". Precisamos explicar que nos opomos a isso porque se trata de uma incompreensão e de uma perversão do casamento, baseada em um falso entendimento da natureza humana, do sexo e do amor. Do mesmo modo, não nos opomos ao aborto simplesmente porque o Papa nos diz para fazê-lo. Opomo-nos a isso pela mesma razão por que o Papa se opõe: porque é algo objetivamente mau, e nós podemos usar a razão para demonstrá-lo.
Em seu discurso, o Papa Bento XVI defendeu por que é imperativo à academia reconhecer que os amplos horizontes da investigação racional incluem questões de fé, de moral e de metafísica. Para aqueles que não estão na educação superior, que nada têm a dizer sobre esse departamento, nós devemos continuar a educar-nos e prover defesas claras e racionais de nossos princípios morais. Não devemos pressupor que a fé é a crença cega em afirmações que não podem ser amparadas ou fundamentadas pela razão. Apelar para a liberdade religiosa como argumento único é implicitamente conceder que a religião é algo irracional e, no fim das contas, sequer seremos capazes de explicar por que nos é devida essa liberdade, em primeiro lugar.
Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
John H. Boyer é doutorando em Filosofia pelo Centro de Estudos Tomistas da Universidade de Santo Tomás, em Houston, no Texas. Também contribui para o site The Federalist.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O pintor da Virgem do Perpétuo Socorro

Conheça a história e o simbolismo do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que remonta ao tempo dos primeiros cristãos.


O autor do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, exposto à visitação dos fiéis na igreja de Santo Afonso de Ligório, em Roma, permanece desconhecido até nossos dias. Segundo a tradição da Igreja, no entanto, o artista que pintou a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro inspirou-se em um ícone atribuído a São Lucas. Além de médico, homem culto e letrado, o Evangelista foi provavelmente um dos primeiros iconógrafos da história da Igreja. Segundo antiga tradição, São Lucas teria pintado ícones de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São Pedro e São Paulo. Há pinturas atribuídas a ele que existem até hoje, como é o caso dos ícones da "Theotokos de Vladimir" e de "Nossa Senhora de Czenstochowa".
A veneração dos ícones sagrados esteve presente na Igreja desde os primórdios do cristianismo. As imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, dos outros santos e dos anjos fazem parte da tradição bimilenar da Igreja Católica. No II Concílio de Niceia, em 787, o Magistério da Igreja "justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova 'economia' das imagens" [1].
No início do século XVI, surgiram entre os protestantes "novos iconoclastas" e, a exemplo do que aconteceu no passado, em nome da fidelidade às Sagradas Escrituras, nossas imagens sagradas foram quebradas e nossas igrejas terminaram invadidas, depredadas e queimadas. Este fato fez com que o culto às imagens sagradas fosse perdendo a sua força em muitas comunidades, ao passo que, com a tradução da Bíblia do latim para as mais diversas línguas, o culto às Escrituras ganhou cada vez mais força. Essa tendência se tornou ainda mais forte quando, por conta de um falso ecumenismo, passou-se a suprimir as imagens das igrejas e das casas.
À primeira vista, essa mudança na espiritualidade pode até parecer uma evolução.
Dito fenômeno causou, entretanto, um grande problema. Como grande maioria das pessoas não conhecia a Revelação como um todo — Sagradas Escrituras e Tradição da Igreja —, nem a interpretação do Magistério da Igreja acerca do mistério de Deus revelado, isso fez com que crescessem equívocos e interpretações contraditórias. O resultado foi uma verdadeira perversão do sentido autêntico das Sagradas Escrituras, por parte de alguns, e a disseminação de heresias, por parte de outros.
Quanto aos ícones, até a Idade Média, os fiéis, que na sua maioria eram pouco letrados, aprendiam o significado profundo dos símbolos visuais. Dessa forma, pessoas rudes, sem instrução, podiam "ler" nas imagens sagradas o patrimônio de fé da Igreja Católica. No Renascimento — que na realidade foi um verdadeiro retorno ao paganismo —, o culto original aos ícones sagrados reduziu-se drasticamente, passando a fazer parte da espiritualidade de um número cada vez menor de pessoas.
No limiar do terceiro milênio, o Concílio Vaticano II tratou, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre o espírito da pregação e do culto. Nesse documento, o mais importante do Concílio, somos orientados quanto ao culto à Virgem Maria e às sagradas imagens, confirmando o ensinamento que nos foi dado em Niceia:
"Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos" [2].
Na contramão desses fatos, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro parece ser para nós como que um sinal dos céus para que voltemos às nossas origens.
No final do século XV, um negociante roubou a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do altar onde estava, na ilha de Creta, onde era venerada pelo povo cristão. O mercador viajou com o ícone, de navio, para Roma e escapou milagrosamente de uma tormenta em alto-mar. Já na Cidade Eterna, ele adoeceu gravemente e, por isso, procurou a ajuda de um amigo. No seu leito de morte, o comerciante, arrependido, contou ao amigo que roubou o quadro e pediu a ele que o devolvesse a uma igreja. Este prometeu devolver a obra de arte sacra, mas depois mudou de ideia e morreu, sem ter cumprido a promessa feita ao amigo comerciante.
Para que se cumprissem os desígnios divinos, a Santíssima Virgem Maria apareceu a uma menina de seis anos, familiar de quem portava o ícone, e "mandou-lhe dizer à mãe e à avó que o quadro devia ser colocado na Igreja de São Mateus Apóstolo, situada entre as basílicas de Santa Maria Maior e São João Latrão, sob o título de Perpétuo Socorro" [3]. Em obediência, o ícone foi devolvido e exposto na igreja de São Mateus em 27 de março de 1499. A partir do século XVI, a devoção começou a se divulgar em toda Roma e, anos mais tarde, pelo mundo inteiro. Nessa igreja, a imagem foi venerada durante os 300 anos seguintes. Em 1798, a igreja de São Mateus foi destruída e a imagem foi retirada a tempo, mas ficou quase que esquecida. Até que, em 26 de abril de 1866, o ícone foi entronizado na Igreja de Santo Afonso, onde permanece até hoje.
Como dissemos, São Lucas pintou belos ícones de Nossa Senhora, como a Virgem do Perpétuo Socorro. No entanto, ele também "pintou" algumas das mais belas "imagens" da Santíssima Virgem nas páginas do santo Evangelho. Entre elas, destacam-se: a anunciação do arcanjo São Gabriel à Virgem de Nazaré (cf. Lc 1, 26-38), a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel (cf. Lc 1, 39-56), o nascimento de Jesus Cristo em Belém (cf. Lc 2, 1-21) e a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém (cf. Lc 2, 22-40).
No ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, temos alguns simbolismos que se fazem presentes no Evangelho segundo São Lucas.
Na imagem, vemos a mão direita de Maria apontando para seu Filho e no Evangelho temos várias passagens que apontam para Jesus como o Messias esperado pelo Povo de Israel: "O ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35b); "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46b-47); "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38a); "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76). Naquele tempo, raramente alguém tinha um livro das Sagradas Escrituras. Possuir uma passagem da Escritura era também muito raro. Por isso, como já dissemos, os primeiros discípulos de Cristo olhavam para os ícones, nas casas das poucas pessoas que os possuíam, e neles "liam" os textos sagrados.
Entre os simbolismos presentes na imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, talvez o teologicamente mais rico e espiritualmente mais significativo seja o retrato do Calvário. Ao contemplar a Virgem do Perpétuo Socorro, vemos à sua esquerda o arcanjo São Miguel, que apresenta a lança, a vara com a esponja e o cálice das amarguras que o Cristo sorveu até o fim. À direita, está o arcanjo São Gabriel, com a cruz e os cravos, que foram os instrumentos da paixão e morte de Jesus. O Menino Jesus, o Perpétuo Socorro em pessoa, assustado ao olhar para os instrumentos de Sua paixão, com as duas mãos, segura firmemente a mão direita de sua Mãe, como que nos ensinando a confiar-nos inteiramente a ela, especialmente nos momentos de medo, dor e sofrimento.
Para completar a nossa "leitura" do ícone, na perspectiva do mistério pascal de Cristo, podemos olhar para Maria como a Virgem das Dores. A sua mão esquerda, que sustenta o Filho, simboliza a sua presença aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25). O seu olhar materno, ao mesmo tempo que demonstra o acolhimento e o cuidado para com cada um de nós, que fomos entregues a ela como filhos, é um convite para que a levemos para o que é nosso, ou seja, para a nossa vida interior, como fez o discípulo amado (cf. Jo 19, 27).
Um detalhe do ícone, que pode passar despercebido, é a sandália desamarrada, que pode simbolizar um pecador, preso a Jesus apenas por um fio, fio este que é a devoção a Santíssima Virgem. Este "fio" tão frágil pode ser uma lembrança, ou uma devoção sem muita piedade, que num momento de desespero, de sofrimento, pode nos manter unidos ao Senhor. Vemos uma imagem disto naquela que é provavelmente a mais conhecida e bela parábola de Jesus, presente somente no Evangelho escrito por Lucas: a parábola do filho pródigo. Depois de deixar a casa do pai e de gastar toda a sua fortuna numa vida desenfreada, o filho esbanjador estava na situação humilhante de cuidar de porcos. Para os judeus que ouviram de Jesus esta parábola, cuidar de porcos era ainda mais humilhante, porque eles os consideravam animais impuros. Para completar a humilhação, o rapaz, faminto, queria comer a comida dos porcos, mas nem isso lhe era dado para comer (cf. Lc 15, 11-16). Foi então que ele entrou em si, refletiu, recordou-se que na casa de seu pai até mesmo os empregados tinham pão em abundância e tomou a decisão de voltar (cf. Lc 15, 17-18). Da mesma forma, um pecador pode voltar para Jesus e se salvar pela simples devoção que tem à Virgem Maria, ou até mesmo por uma vaga lembrança do amor que nutre por ela.
Nas passagens do Evangelho que falam dos dois ladrões, crucificados à direita e à esquerda de Jesus, há aparentemente uma contradição, que pode nos ajudar a aprofundar nossa reflexão. Em Mateus e Marcos, ambos escarneciam de Jesus: "E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam" (Mt 27, 44; cf. Mc 15, 32). Mas, em Lucas, apenas um dos malfeitores blasfemava (cf. Lc23, 39). O outro, que segundo a tradição se chamava Dimas, não somente repreendeu o outro ladrão, mas também reconheceu que para eles aquela condenação era justa, mas não para Jesus, pois não tinha feito mal algum (cf. 23, 40-41). A razão desta aparente contradição é que, segundo uma visão da mística Beata Anna Catharina Emmerich, a princípio, ambos escarneciam do Cristo, até que algo inesperado aconteceu:
"Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado [da lepra] quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: 'O quê? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus'" [4].
Naquele momento derradeiro de sua vida terrena, São Dimas recebeu a graça de recordar de Jesus e de sua Mãe. A partir dessa lembrança de sua infância, começou o extraordinário processo de conversão do bom ladrão, que culminou no seu ousado pedido: "Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc 23, 42). A salvação de São Dimas estava por um "fio", que era a vaga recordação de uma cura, operada pelas mãos do Menino Jesus e de Maria. Dessa forma, quase no último momento de sua vida, o bom ladrão "roubou" o Céu, a salvação eterna.
São Lucas escreveu o Evangelho de Jesus Cristo não somente com palavras, mas também com imagens, que nos ajudam a encontrar na devoção a Virgem Maria um caminho seguro para chegar a Ele. Que neste dia, no qual celebramos Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, façamos o salutar propósito de "ler", na sua imagem, as Sagradas Escrituras, e nelas encontrar o próprio Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne.
Ainda que nossa situação seja semelhante à do filho pródigo, ou como a do bom ladrão, e nossa vida esteja unida a Cristo apenas por um "fio", entreguemo-nos com confiança à Virgem das Dores, que nos foi dada, pelo próprio Filho, por Mãe (cf. Jo 19, 27). Assim, da mesma forma que a Mãe de Deus contribuiu para a cura e a salvação de São Dimas, ela nos alcançará os bens necessários para a nossa vida terrena e principalmente para chegarmos à glória celeste.

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 2131.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, 67.
  3. A12, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
  4. Flor do Carmelo, Meditação - Quinto Mistério Doloroso - Jesus Morre na Cruz. Texto extraído do livro: Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus, da Beata Anna Catharina Emmerich. Como toda revelação particular, não somos obrigados a crer com fé católica nesse escrito, mas podemos aceitá-lo para melhor compreensão das Escrituras e para edificação de nossa fé.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Por que você é a favor dos anticoncepcionais?


Você já parou para se perguntar isso?


Muita gente se pergunta, indignada, o porquê de a Igreja Católica se opor ao uso de contraceptivos. O que poucas pessoas fazem, no entanto, é parar uns minutos para se perguntar com sinceridade: mas por que eu, afinal de contas, sou a favor dos métodos anticoncepcionais?

Neste breve vídeo, Padre Paulo Ricardo nos ajuda a refletir sobre este assunto e assinala o principal motivo por que tanta gente, nos últimos tempos, tem-se recusado a ter uma família mais numerosa.


Por que motivos, afinal de contas, a Igreja Católica faz questão de ser contrária ao uso de anticoncepcionais? Esta postura antiquada, expressão de um rigorismo moral tacanho e hipócrita, não está na contramão dos tempos atuais e dos assim chamados “direitos reprodutivos”? Quem quer que ouse dizer-se católico por certo já ouviu uma ou outra vez perguntas deste teor — feitas quase sempre com aquela paciente delicadeza de quem só deseja “debater ideias”. A posição da Igreja a respeito de temas tais, no entanto, já está mais do que bem explicada e resumida numa multidão de documentos, à disposição fácil do grande público. O que as pessoas muitas vezes se esquecem de fazer é, deixando de lado o que diz essa ou aquela instituição, perguntar com sinceridade a si mesmas: — Mas por que eu, afinal de contas, sou favorável aos anticoncepcionais?

Se olharmos pois para as razões por que tanta gente se deixa seduzir pelos métodos contraceptivos, veremos que o problema de fundo não é outro senão uma visão estreita e materialista da vida. De fato, se o que importa é este mundo e, portanto, a felicidade que é possível gozar aqui, então por que ter muitos filhos e apertar, assim, o orçamento de casa? Não seria melhor comprar um cachorro, mais barato e, às vezes, até mais carinhoso do que as crianças? Se só há esta vida, em que se colhem consolações passageiras à custa de um sem número de amarguras duradouras, então por que dar a um pequenino a “desgraça” de sofrer, mesmo que seja um pouco? Seria uma insensatez, pensam alguns, e até falta de compaixão, acrescentam os mais caridosos, submeter novas vidas ao perigo de um dia — fechem-se os ouvidos! — terem de morrer.

Mas se cremos, como diz o Apóstolo Paulo, que os “sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18), então o que nós, ditos cristãos, julgaremos melhor: vir à luz, passar por essa vida carregando, sim, algumas dificuldades — pouco luxo, férias modestas, colégios públicos, casa agitada e sem sossego, longas filas do SUS etc. — e ir, enfim, ser feliz para sempre com Deus na glória do Céu, ou nunca ter existido? Não é preciso ser lá muito esperto nem saber grande coisa de teologia para adivinhar a resposta de quem se quer verdadeiramente discípulo de Cristo.

Sim. A Igreja têm muitas e bem fundamentadas razões para se opôr fortemente aos anticoncepcionais e a toda mentalidade antinatalista. Mas e nós: que razões vamos dar ao Senhor e à nossa consciência para justificar a mesquinhez de não queremos trazer ao mundo novos adoradores do Deus único e verdadeiro, destinados a participar na alegria do Céu de uma felicidade sem fim, que nem a traça corrói nem o ladrão fura (cf. Mt 6, 19)?

Fonte: Aleteia

Santo Inácio de Antioquia

Um martírio célebre no século II foi o de Santo Inácio de Antioquia; no ano 107, no Coliseu de Roma, vítima da perseguição de Trajano (98-117), por ocasião dos gigantescos espetáculos dados por este imperador para comemorar suas vitórias sobre os dácios. Inácio foi condenado juntamente com Rufo e Zózimo.

Santo Inácio era bispo de Antioquia, que teve como primeiro bispo São Pedro, ao qual sucederam Evódio e em seguida Inácio, o Teóforo (= o que traz em si Deus), como ele mesmo gostava de ser chamado. Conviveu com São Paulo. São João Crisóstomo (†407), doutor da Igreja de Constantinopla, no seu**Panegírico de Santo Inácio,**diz que ele foi designado bispo de Antioquia pelo próprio São Pedro. As **Constituições Apostólicas,**compilação do século IV, falam de sua ordenação por São Paulo.

Era um gigante da fé; seu nome faz lembrar fogo [ignis]; era um “revolucionário da Cruz”, assumia os riscos sem medo e com determinação. Diante do martírio escreveu: “Debaixo da lâmina do cutelo ou no meio das feras, é sempre junto de Deus que estarei”.

Dizia: “Realizemos todas as nossas ações com o único pensamento de que Deus habita em nós”.

Santo Inácio foi preso na mesma perseguição que martirizou São Clemente de Roma (†97) e São Simeão, que sucedeu São Tiago Menor como bispo de Jerusalém no ano 107. Santo Inácio foi levado preso a Roma, conduzido por um grupo de soldados. Durante a viagem escreveu sete cartas aos cristãos da região da Grécia e Turquia de hoje: coríntios, efésios, magnésios, tralianos, romanos, filadélfios, esmirnenses; e uma carta a São Policarpo de Esmirna [Padres Apostólicos]. Suas cartas revelam um homem enérgico e empreendedor, pronto a lutar e morrer pela fé. Era também jurista e administrador emérito; ao mesmo tempo teólogo e místico. Com São Policarpo e Santo Irineu, é um dos representantes diretos da geração dos Apóstolos.

A metrópole da Síria, Antioquia, era a terceira em ordem de grandeza do vasto Império Romano, só era menor que Roma e Alexandria. Trazido acorrentado a Roma, foi devorado pelas feras selvagens no Coliseu. Muitos se desdobravam para evitar o seu martírio, mas Inácio desejava-o mais que todas as coisas e suplicava aos irmãos de Roma que não lhe impedissem de dar seu testemunho, e que não pedissem às autoridades imperiais por ele:

“Deixem-me ser a comida das feras, pelas quais me será dado saborear Deus. Eu sou o trigo de Deus. Tenho de ser triturado pelos dentes das feras, para tornar-me um pão puro de Cristo […]. Deixai-me fazer o sacrifício enquanto o altar está preparado. Deixai-me ser presa das feras. É por meio delas que chegarei a Deus.”

Ele gostaria “que seu corpo encontrasse sepultura na barriga de uma fera faminta”, de modo que seus funerais não ficassem a cargo de ninguém! Mas os cristãos de Antioquia veneraram, desde a antiguidade, o seu sepulcro nas portas da cidade e já no século quarto celebravam a sua memória a 17 de outubro, dia adotado agora também pelo novo calendário.

As suas palavras de amor a Cristo e a Igreja ficaram na lembrança de todas as gerações futuras: “Onde está o bispo, aí está a comunidade, assim como onde está Cristo Jesus aí está a Igreja Católica”, escreve na carta endereçada ao então jovem bispo de Esmirna, São Policarpo. As expressões “Igreja Católica” e “Cristianismo” foram empregadas a primeira vez por ele.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

210 - Nós somos obrigados a pagar o dízimo?

Os católicos são obrigados a pagar o dízimo, no sentido estrito do termo? Ou seja, devem dar 10% de seus rendimentos à Igreja? Essa pergunta se faz necessária porque é cada vez mais frequente ouvir, dentro da Igreja, um eco da pregação protestante, segundo a qual a determinação do Antigo Testamento de pôr à parte "o dízimo de todo fruto de tuas semeaduras, de tudo o que teu campo produzir cada ano" [1], deveria ser seguida ao pé da letra.
Para responder adequadamente a esta questão, é importante distinguir três leis: a lei natural, a lei da Igreja e a lei da caridade.
Com relação à primeira, Santo Tomás de Aquino diz que existe um fundamento natural para que o povo sustente os seus ministros. Diz ele: "Que o povo deve sustentar o os ministros do culto é determinação da razão natural, como também recebem do povo salário para seu sustento aqueles que servem o bem comum: os governantes, os militares, e outros" [2]. E ainda: "O preceito da paga dos dízimos, quanto ao seu aspecto moral, foi dado pelo Senhor e está no Evangelho de Mateus: 'Digno é o operário do seu salário'" [3].
No entanto, na história da Igreja, esse direito já foi contestado. Os movimentos protestantes anteriores à Reforma, por exemplo, contestavam o dízimo como direito natural. Não à toa a Igreja exigia dos valdenses, a quem ela acolheu no século XIII, após muito tempo de divisão, que confessassem o seguinte: "Cremos que se deve doar aos clérigos sob as ordens do Senhor o dízimo, as primícias e as oblações" [4]. Na mesma linha, um dos erros de John Wycliffe condenados pelo Concílio de Constança dizia: "Os dízimos são também esmolas, portanto os paroquianos podem negá-los a seu juízo em razão dos pecados de seus prelados" [5]. Ou seja, os pecados dos bispos ou dos sacerdotes não cancelam o dever de justiça que os fiéis têm de sustentar as suas necessidades.
Mas, nesse campo, não existe apenas a lei natural, como também a lei da Igreja. Santo Tomás diz que oferecer a Deus a décima parte dos próprios rendimentos não está na natureza das coisas, mas é um preceito judicial, uma determinação que pode ser mudada de acordo com as circunstâncias [6]. No Antigo Testamento, a tribo de Levi precisava ser sustentada pelas demais tribos de Israel; era razoável, portanto, que elas tivessem que lhe pagar 10% de seus rendimentos. Mas, assim como as leis chamadas cerimoniais – como oferecer bodes e carneiros no templo de Jerusalém –, essas leis judiciais não são mais vinculantes.
Agora, o que devem ser seguidas são as determinações das Igrejas locais. O Catecismo, ao explicar os mandamentos da Igreja, diz: "O quinto preceito ('prover às necessidades da Igreja, segundo os legítimos usos e costumes e as determinações') aponta ainda aos fiéis a obrigação de prover às necessidades materiais da Igreja consoante as possibilidades de cada um" [7]. Trata-se de um resumo do que estipula o Código de Direito Canônico, ao estabelecer que "os fiéis têm a obrigação de prover às necessidades de Igreja, de forma que ela possa dispor do necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade, e para a honesta sustentação dos seus ministros" [8].
O mesmo Código estabelece, noutro lugar: "Os fiéis concorram para as necessidades da Igreja mediante subvenções que lhe forem solicitadas e segundo normas estipuladas pela Conferência episcopal" [9]. Atendendo a isto, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em legislação complementar aprovada pela Santa Sé, determinou:
"Cabe à Província Eclesiástica dar normas pelas quais se determine a obrigação de os fiéis socorrerem às necessidades da Igreja, conforme o cân. 222, § 1. Busquem-se, contudo, outros sistemas que – fomentando a participação responsável dos fiéis – tornem superada para a manutenção da Igreja a cobrança de taxas e espórtulas." [10]
Então, é preciso consultar as Províncias Eclesiásticas para descobrir as normas que regulam a obrigação de socorrer às necessidades da Igreja. O caminho preferencial escolhido no Brasil é fazer que as pessoas tomem consciência de sua responsabilidade, mais do que simplesmente dar taxas e espórtulas à Igreja.
No que diz respeito à obrigação dos 10%, Santo Tomás não parece ser muito favorável a uma imposição estrita, afinal, esse valor se figura um pouco excessivo para a sustentação do clero. Além do mais, escreve o Aquinate, "os ministros da Igreja devem dedicar-se mais em promover o bem espiritual do povo do que em receber os bens temporais" [11]. Já que estamos na lei da graça, é mais interessante que a doação dos fiéis brote de sua generosidade do que de uma lei escrita. Isso quer dizer que as pessoas podem dar menos ou até mais de um décimo de suas rendas, de acordo com as necessidades de sua Igreja local e a generosidade que lhes inspira.
Quanto à lei da caridade, é importante notar que a Antiga Lei não tinha estabelecido o dízimo apenas para o sustento dos ministros, mas também para socorrer os pobres e necessitados. Para isso, não existem limites. Santo Tomás, com grande inteligência e fidelidade ao Evangelho, diz:
"A terceira espécie de dízimos, destinada a alimentar os pobres, foi aumentada na Lei nova, porque não somente a décima parte seria dada aos pobres, mas também o que sobrava, em cumprimento do preceito evangélico: 'O que sobrar, dai como esmola'. Quanto aos dízimos entregues aos ministros da Igreja, eles mesmos os dispensarão aos pobres." [12]
Não se deve esperar leis para fazer o bem. Existem, de fato, a lei natural e a lei eclesiástica; mas a lei da caridade deve brotar disto que está no Evangelho: Jesus, rico que era, fez-se pobre para nos enriquecer a todos. Do mesmo modo, devemos seguir essa " imitatio Christi – imitação de Cristo" e socorrer os mais necessitados.

Referências

  1. Dt 14, 22. A razão de ser desse dízimo estava explicada no versículo 29 desse mesmo capítulo: serviria para o levita, para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva.
  2. Suma Teológica, II-II, q. 87, a. 1
  3. Suma Teológica, II-II, q. 87, a. 1, ad 2. Cf. Mt 10, 10
  4. DS 797
  5. DS 1168
  6. Suma Teológica, II-II, q. 87, a. 1
  7. Catecismo da Igreja Católica, 2043
  8. Código de Direito Canônico, cân. 222, § 1º
  9. Ibidem, cân. 1262
  10. Legislação Complementar ao Código de Direito Canônico emanada pela CNBB Decreto nº 2/1986
  11. Suma Teológica, II-II, q. 87, a. 1, ad 5
  12. Suma Teológica, II-II, q. 87, a. 1, ad 4. Cf. Lc 11, 41